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Política na Baixada: “Corpo doente”

> Ewerson Cláudio

Desde o milênio passado, sempre ouvi falar que os políticos tradicionais do sertão nordestino utilizavam a bica d’água como moeda de troca para conquistar mandatos. Aqui pela Baixada nunca foi diferente. A “bica d’água” - que ainda encontramos por aqui em sua forma literal – tem também a forma de manilha, pó de pedra, tijolo, camisa, remédio, dentadura, ligadura de trompa, pinga, subemprego de algumas semanas e o emprego de um dia da boca-de-urna (compra de voto, né?), que, claro, é proibida. Em regiões carentes, o clientelismo e o fisiologismo evoluíram de desvio de comportamento de parte da classe política para a principal forma de relacionamento dos políticos com seus representados. O desvio virou (ou sempre foi?) regra e para identificar as excessões, é preciso lupa e binóculos.

A própria definição dos termos clientelismo e fisiologismo dá a dimensão e a complexidade do problema. Na ausência de consciência de seus direitos, de auto-organização e ação por parte da maioria da população, as pessoas desassistidas pelas políticas públicas conformam-se em ficar na condição de clientes de determinados “fornecedores” de pequenas e eventuais benfeitorias – o clientelismo – numa relação fisiológica (tomando-se emprestados termos da biologia), onde “órgãos” cumprem diferentes papéis para o funcionamento de um determinado “sistema” em um corpo. Neste caso, há relação “orgânica” entre população carente e políticos tradicionais no “sistema” de representação política institucional no “corpo” da sociedade. Um corpo doente.
Foi assim que aqui pela Baixada Fluminense se constituíram os coronéis, xerifes, doutores, protetores (eu ia dizer matadores, mas sabe como é...) e outras inúmeras denominações de aproveitadores/reprodutores da pobreza através da política. Faço aqui uma ressalva: reconheço que sempre houve pessoas que, mesmo na política, praticaram o assistencialismo pelo lado bom da coisa, a partir do sentido humanitário e/ou religioso; uma outra parte, por costume e “genética” da política torta, reproduz essas práticas sem a consciência da distorção e do vício de que está participando. Mas, ao final, todos acabam contribuindo para a reprodução de um sistema errado, injusto e concentrador de poder político e econômico.

Ao longo de décadas, o clientelismo e o fisiologismo sempre combinaram ou alternaram duas interfaces: o autoritarismo e o populismo. Se Tenório Cavalcante é uma espécie de arquétipo construído ainda na metade do século passado, outros homens herdaram sua capa preta nos períodos subseqëntes. Durante a ditadura militar, o padrão do político local era o populista autoritário (muitos, apenas autoritários), conservador ou reacionário.

Já no final da ditadura e na redemocratização, uma onda populista, de viés pretensamente progressista, invadiu a Baixada. Geralmente ancorada no brizolismo, essa onda deu à luz uma espécie de político demagogo e sem projeto, que prometia o céu na terra com a eleição de Brizola presidente (sobre o inferno, em especial de seu segundo mandato de governador, diziam que o problema é que Brizola sofria oposição federal) e governava nos mesmos tortos moldes tradicionais. É bom lembrar que em 1982 o brizolismo elegeu prefeitos em Nova Iguaçu (que abrangia Mesquita, Belford Roxo, Queimados e Japeri) e São João de Meriti (Duque de Caxias não tinha eleições para prefeito porque, devido à REDUC, o município estava incluído na famigerada “área de segurança nacional”, o que perdurou até 1985).

Com o declínio político de Brizola, o populismo na Baixada abandonou sua face mais à esquerda e ganhou outros contornos. Começaram a surgir políticos que não se “metiam” nessa história de direita-esquerda e que buscavam se afirmar como “salvadores da pátria” acima do bem e do mal. Joca – e a sua “Belford Roxo, cidade do amor” - e, depois, Zito, são, sem dúvida, os principais expoentes dessa fase, onde o populismo autoritário pretensamente desideologizado teve seu auge.

Assim, apresentar-se na política da Baixada (como de qualquer região carente) com uma postura alternativa a esse padrão autoritário-populista, clientelista-fisiológico nunca foi fácil. Inúmeras lideranças comprometidas com a auto-organização popular apresentaram-se como candidatas a cargos eletivos, mas viveram a experiência de serem reconhecidas enquanto lutadoras do povo, porém, rejeitadas enquanto representantes desse mesmo povo na política “oficial”.

Mesmo dentro do espectro da esquerda - à época representada por PT, PCdoB, PCB e, a depender do lugar, PSB e PPS – devemos lembrar que os primeiros parlamentares eleitos na Baixada a partir do final da década de 80 (vereadores Moacyr de Carvalho e Rose Souza e as deputadas estaduais Rose Souza e Lúcia Souto) eram médicos, ou seja, militantes que, além da sua dedicação à construção de entidades populares e à luta por uma sociedade justa, exerciam uma profissão que os colocava em contato permanente com um grande contingente de massa (e numa relação privilegiada do ponto de vista do senso comum, aproximando-se – não por vontade desses parlamentares, ressalto - de uma relação de clientela). Para não ficar nenhum mal entendido sobre esta observação (que julgo importante para esta reflexão), reafirmo que não atribuo a eleição dessas pessoas a nenhuma prática clientelista ou fisiológica, nem muito menos populista.
Voltando ao pior da política, hoje continuamos a conviver com as práticas tradicionais que combatemos há décadas. No novo milênio, a Baixada Fluminense vive uma profusão de “políticos de departamento” (Fulanos do gás, da farmácia, da padaria, do salão, do trailer...) e dos políticos-calendário” (aqueles que se auto-promovem em out dors nas datas comemorativas). Isso para não falar dos pastores...

Quando ouvimos alguém dizer que “é preciso ver a história da pessoa, quem faz alguma coisa; não quero blá-blá-blá”, não devemos nos animar. Na verdade, o que a população quer dizer com isso é “Não quero saber de discussões! Vai asfaltar a minha rua? Arranjar-me um emprego?” E isso sequer é dito numa perspectiva coletiva. Vemos milhares de pessoas vendendo seu voto pelo pagamento de um dia da famigerada boca-de-urna, que, torno a dizer, significa, na prática, compra de voto! Por enquanto (espero que por enquanto), tudo isso representa o triunfo do velho, dos mesmos, da anti-política ocupando o nobre espaço das discussões de diferentes projetos de sociedade.

Ainda dentro dessa discussão, considero que há duas questões importantes para serem refletidas. Uma, é o que os setores organizados da sociedade – e com uma perspectiva de esquerda – estão pensando e fazendo. A outra questão é: qual foi o significado e o impacto real da chegada do PT – agremiação que durante anos foi a depositária de esperanças de novas práticas na política - ao poder local na Baixada Fluminense? Como isso, sabemos, dá muitos caracteres e pano pra manga, vou fazer essa discussão em separado e num outro momento. Aguardem.

Ewerson Cláudio é da Revista Cultural Nós e do SobreTudo.

Publicado no jornal ComCausa 27.

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