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Identidades e Políticas Culturais

> Ewerson Cláudio

Refletindo sobre as possíveis identidades da Baixada Fluminense. Considero que o auto-reconhecimento é condição imprescindível para uma boa auto-estima, para a mudança de rumos e a construção de futuro baseada nas potencialidades da população que constitui a região.

Em minha opinião, há uma identidade adormecida, passiva. Todo mundo certamente acha que está entre mais ou menos iguais em se tratando de Baixada, mas, em geral, não há a preocupação de se tirar as conseqüências disso. A igualdade dá-se pelos estigmas e raramente vêem-se as virtudes dessas semelhanças.

Do ponto de vista sócio-econômico, formamos uma das regiões mais pobres do país, onde 80% da população vive com renda menor que dois salários mínimos (traduzindo: famílias de quatro, cinco pessoas vivendo com até R$ 760,00 por mês). A dissemelhança geográfica com os morros da capital nos dá as características de uma favela deitada. A historiadora Marize Conceição lembra que aqui se formou a terceira maior concentração de população negra do país, atrás somente de Salvador e São Luís do Maranhão.

No rastro das cidades partidas, a Baixada compõe-se de tecidos sociais rasgados. Ao redor de centros comerciais para consumo de sua pequena classe média, multiplicam-se os excluídos. Adultos que foram expulsos do mercado formal de trabalho e jovens que jamais conseguirão entrar nele; que são cada vez mais assassinados com a banalização do extermínio (mais de 1200 mortos após a chacina da Baixada em 2005!). Cada vez mais, vamos nos acostumando a conviver com a ilusão neoliberal dos poucos shoppings centers rodeados pelo capitalismo real dos camelódromos.

Essas características sócio-econômicas ajudam a construir aspectos culturais próprios. Como diriam Garoto, Vinícius e Chico, é “gente humilde, são casas simples com cadeiras na calçada” - e que tem mania de andar no meio da rua, onde ainda se ouve o trotar freqüente de cavalos puxando carroças. São gerações que foram vítimas do êxodo rural, do exílio das áreas nobres da capital e que vão sendo empurradas para as periferias das periferias, isolando-se em seus bairros afastados. Há pouquíssimas praças e um número menor ainda de brinquedos para as crianças. A coletividade manifesta-se em pequenas redes de solidariedade e de sobrevivência, seja na laje feita pelos vizinhos ou nas rodas bebendo-se cachaça e “baixa-renda” nos traillers, biroscas e puxadinhos na calçada. No final da década de 70, meu amigo Neco dizia que por aqui só havia motéis e bares. A coisa evoluiu: multiplicaram-se as igrejas evangélicas, as farmácias e as financeiras de empréstimo fácil...

Mas há também uma vasta rede de resistência cultural, em seu sentido mais amplo. Resquícios dessa gente retirante que trouxe seus costumes e que misturou identidades de regiões e gerações. Gente que é do samba/pagode e do forró; que mantém a tradição das quadrilhas de roda nas festas juninas e ainda guarda espaço, ainda que pequeno, para as folias-de-reis (do interior do país) e o calango, vindo de Minas. As tradições nordestinas tão bem representadas na Feira de Caxias ou através de repentistas de Queimados e Japeri. Os muitos Centros de Candomblé e Umbanda, onde há autoridades religiosas nacionalmente famosas como Mãe Beata, Mãe Nitinha e Mãe Torody (São João de Meriti tem a 2ª maior concentração de Centros do país, depois de Salvador). O futebol de várzea, que reúne milhares de pessoas nos finais-de-semana, das 6h da manhã(!) ao final da tarde.

Isso tudo convive com novas manifestações, sejam as que refletem um sentimento de resistência ou não-integração ao Sistema – como os segmentos da juventude que se expressam através do Hip Hop, da “cultura de rua” (grafiteiros, skatistas e street dancers), dos cineclubes alternativos, da arte circense etc. - ou aquelas manifestações que refletem exatamente a força da indústria cultural. E não tenhamos ilusões: quantitativamente, a imensa maioria da população da Baixada consome produtos culturais feitos em escala industrial, efêmeros e descartáveis.

E numa região tão pobre-rica, quais têm sido as políticas culturais implementadas? Para se responder a essa indagação, é necessário que façamos uma abordagem a partir de dois aspectos: as políticas públicas, no sentido estatal-governamental e as políticas desenvolvidas por setores da chamada sociedade civil.

Quanto às políticas públicas de cultura, a meu ver, o resultado é o pior possível. Há uma ausência de política cultural. Pior que isso: nota-se a ausência de políticas de governo (ou ausência de governos) que sintam a necessidade de se ter uma política cultural. Até agora, o que tem acontecido tem muito mais o jeito de somatório (pra não dizer amontoado) de coisas que muito raramente produzem meras coincidências que se assemelham a algo intencional e que poderiam ser chamadas de políticas culturais. Na melhor das hipóteses, poucas pessoas bem intencionadas digladiam-se com engrenagens administrativas que funcionam para manter as coisas como estão. No máximo, pão e circo (se bobear, superfaturados...). Essa é a realidade em escala municipal, estadual e federal para a Baixada, uma região que precisaria de um grande investimento integrado para diminuir o enorme déficit sócio-cultural.

Esse é o resultado da ação de governos que não ultrapassam os marcos tradicionais da cultura política – e, como conseqüência, da política cultural – predominante. Administrações que não se propõem – mesmo aquelas que tinham condições de - a enfrentar a atual hegemonia ideológica a que a maioria do povo oprimido está submetida. Que não ousam estabelecer, em nenhum momento, elementos de contra-hegemonia, ainda que parciais ou localizados, que contribuíssem, em longo prazo, para o estabelecimento de uma nova cultura (aqui, no sentido amplo do termo).

Com esse quadro lastimável das políticas públicas de cultura na Baixada, resta à sociedade a alternativa da auto-organização. O artista e o produtor cultural ou de eventos de regiões pobres são desbravadores por excelência. Às habilidades específicas, são obrigados a juntar a capacidade de elaboração, captação de recursos e execução. Além dos artistas e produtores, há organizações da sociedade civil que têm se preocupado em estruturar, ajudar e dialogar com expressões culturais. Essas ações podem ser desde a identificação e preservação do patrimônio imaterial da região até a organização concreta de redes de movimentos culturais e realização de eventos. É claro que, olhando-se de conjunto, ainda predomina nessas iniciativas o olhar e o fazer segmentados; porém, se levarmos em conta as condições em que essas ações são realizadas, veremos que é a parcela da sociedade civil que se organiza para produzir ações.

Ewerson Cláudio é da Revista Cultural Nós e do SobreTudo.

Publicado no jornal ComCausa 24.

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