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Desrespeito na Folha de São Paulo
- A identidade desconhecida do Hip Hop Brasileiro

> Giodana Moreira

Podemos lamentar a matéria “Cultura de bacilos” da jornalista Bárbara Gancia na Folha de São Paulo publicada na edição de 16 de março, onde demonstra profundo desconhecimento sobre o Hip Hop e as políticas públicas para a Juventude.

Porém a ComCausa, que atua na cultura e no movimento Hip Hop, assim como centenas de grupos organizados pelo país, conhece e trabalha em uma história pouco reconhecida pela sociedade em geral, a qual tem como referência astros que não possuem qualquer compromisso com uma transformação: afinal, estão milionários ou chegaram a patamares do show business que lutam para conservar a cada álbum.

O conteúdo sócio-cultural que a Cultura de Rua nos traz é exatamente o apontamento das novas formas de transformação que o jovem encontrou para intervir na sociedade segundo suas necessidades e perspectivas.

Das origens do Hip Hop na América do Norte, fundindo os quatro elementos vindos de diferentes partes do mundo, construídos por africanos e latinos, o visionário Afrika Bamabatta lhes adicionou os fundamentos da paz e da revolução intelectual, ou seja, o jovem condenado à marginalidade ou ao conformismo agora tinha uma oportunidade de transcender a esta regra. Como esta regra foi criada para atender a interesses de um sistema de exploração foi de lá também que, em seguida, por meio de um processo de mercado, um estereótipo surge para contemplar interesses da indústria e do governo em um período pós Panteras Negras. Daí, a imposição de sua intelectualidade e a necessidade de ocupar espaços dentro da sociedade é distorcida para um poder de consumo, que são os carrões, as drogas, as mulheres objeto e seus cordões de ouro. Assim, o rap se perpetuou como o segmento musical que mais vende na indústria fonográfica norte-americana, deturpando todo um propósito. E este estereótipo se espalhou pelo mundo assim como - salve! - seus fundamentos ideológicos, extremamente disseminados aqui no Brasil. Os americanos, quando conhecem o Hip Hop brasileiro, dizem estar de volta aos anos 80 nos Estados Unidos. Se isso é bom ou ruim depende do rumo que daremos ao nosso Hip Hop.

Como a explosão do mercado do rap não aconteceu no Brasil, as referências que a massa tem de Hip Hop são os estereótipos importados e as pouquíssimas figuras de díspares vertentes que vivem de rap no Brasil, ignoradas solenemente pela jornalista, assim como as centenas de projetos que tentam dar um novo sentido à juventude de hoje. Assim, não só nesta matéria infeliz, mas para uma sociedade em si, todas nossas conquistas nestas três décadas ainda não são reconhecidas.

A identidade musical do rap brasileiro está sendo criada de forma inovadora e independente nos porões do underground brazuca. Assim como os outros elementos da cultura estão conquistando cada vez mais espaços de forma isolada. As produções musicais estão inovando a música brasileira (o que The Black Eayed Peãs fez com Sergio Mendes os grupos undergrounds do Rio nasceram fazendo), como a BossaRap, onde o pioneiro é um rapper, poeta, professor de português e morador do Bairro Pobre e violento da Pavuna; como o resgate do Vinil que foi hiperimpulsionado pelos Djs de Hip Hop; como o freestyle, o improviso brasileiro contemporâneo. O grafite tem se inserido legitimamente no campo das artes plásticas e apropriado pelas periferias brasileiras. O Hip Hop é um dos segmentos mais fomentados pelas organizações da sociedade civil atualmente, justamente por esta identificação e o diálogo com o jovem das periferias trazer conteúdo e arte em sua pretensa e original forma de revolução.

E assim como em carta ao Megazine - Jornal O Globo - comentando uma reportagem do jornalista Bruno Porto, “Revolução que não toca”, em 13 de fevereiro, a ComCausa acrescentou: “Peço a atenção para estes fatores positivos, avanços e evoluções que gostaríamos de ter oportunidade de mostrar e assim conquistar o espaço que o Hip Hop brasileiro, tão rico e diverso, merece na cultura, na arte e no movimento”. Obviamente estes fatores não têm espaços como as mega promoções do Snoop e do Eminem, que não atendem a interesses do Hip Hop, mas das suas gravadoras, que sobrevivem do que os próprios forjam. Espaços estes que não são públicos ou que ainda não foram criados pelo próprio Hip Hop. Por que o Hip Hop no Brasil ainda engatinha, mesmo com uma produção tão rica, é um debate constantemente levantado pela mídia e que é pertinente no próprio movimento.

Mas as criações e conquistas que não tocam, existem e devem ser reconhecidos na sociedade como um todo. Tanto nas pautas das políticas públicas como na sociedade, ou mesmo nas discussões das culturas populares que encontram sérias barreiras, como o conservadorismo e o desconhecimento. Também quanto a sua gestão, quando buscam incentivos dos órgãos públicos ou privados, para atender aos interesses de uma população jovem, a qual sente somente a ausência de um poder público capaz de atender a seus direitos básicos, sujeita à a repressão de uma sociedade conservadora que considera seus jovens incapazes de protagonizar uma mudança na caótica situação que todos nós, de todas as classes, nos encontramos atualmente.

Certa vez em uma via publica o traçado no muro dizia: Hip Hop não é escola para mendigos. Não mesmo, pois mendigos, desempregados, crianças, mães adolescentes e idosos abandonados, desabrigados, sem tetos, sem terras, doentes da rede pública, vítimas da violência precisam de abrigo, comida, atendimento médico e psicológico, educação básica, capacitação profissional, e respeito à condição de ser humano. E a juventude brasileira hoje que está em meio a uma guerra de balas perdidas pelas ruas e a uma inversão de valores, precisa pensar e protagonizar uma mudança para que a desesperança em um futuro positivo não se instale, como já acontece nos jovens que renegam qualquer participação política, para xingar a polícia e os corruptos enquanto faz música na garagem. E além de Pontos de Cultura e projetos de assistência e arte-educação, precisam de educação, saúde, trabalho e cultura, o que um Estado devia manter, mudança que com o entendimento de um papel responsável dentro deste sistema social o próprio jovem pode promover, não suprindo a ausência de um Estado capaz, mas fazendo com que este atenda a seus interesses. E é para isso o Hip Hop, o Manguebeat, os cineclubes, os grupos de teatro e as bandas independentes e toda a forma de promoção dos direitos e da liberdade de expressão.

Giordana Moreira tem 27 anos, é Coordenadora da ComCausa, produtora Cultural, participa da Rede de Grupos Artísticos e Culturais da Baixada Fluminense, do Fórum Reage Baixada, é Iguaçuana, mais especificamente da comunidade de Rosa dos Ventos, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro e pensa Hip Hop.

Publicado no jornal ComCausa 21.

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