Artigos

 

 

 

 

Reage Baixada - Dois anos

> Leilah Landim

Há dois anos atrás eu chegava de uma longa viagem ao exterior, contente por voltar ao Rio de Janeiro onde moro, quando abri os jornais e – misto de estranhamento e familiaridade - vi a notícia: 29 pessoas assassinadas em Nova Iguaçu e Queimados, aleatoriamente, pelas ruas, num trajeto sinistro percorrido pelos assassinos em menos de duas horas. Como assim? Quem eram? Quem matou? Por que ? É sempre a tarefa de buscar entender o que, no limite, é incompreensível. E seguimos com os instrumentos que todos e cada um de nós possui, a seu modo, para manifestar a dor, a solidariedade, a revolta, a cobrança, a proposta.

Tendo amigos em Nova Iguaçu, telefonei para saber detalhes dos acontecimentos. Horas depois – transposta a fronteira de poucos quilômetros e muitos preconceitos que separa o Rio da Baixada – eu assistia à missa / manifestação realizada no próprio dia do enterro das vítimas. Continuei a participar das mobilizações que se seguiram de imediato também no Rio, onde intelectuais e organizações civis se uniam em abaixo-assinado de solidariedade, repúdio e exigência de que “o Estado assuma integralmente sua responsabilidade de fazer justiça” (9/4/2005).

Logo, o que era envolvimento pessoal transformou-se em trabalho de grupo: montamos um projeto de pesquisa e extensão na UFRJ, onde leciono, visando o registro e acompanhamento ativo desse e de outros processos relacionados às mobilizações da sociedade civil, focalizando a violência e a juventude, na Baixada Fluminense. Quem se mobiliza, para que, com que motivos e ideários, hoje – tempos crise de movimentos, como se diz – nessa região caracterizada pela segregação e invisibilidade social? Quais as consequências possíveis, quanto a políticas públicas, inclusão social e criação de cidadania? O que mobiliza a juventude? Etc. Buscamos utilizar, como diz a socióloga Ana Clara Torres, uma “metodologia que contemple o respeito à ação possível”.

Iniciamos um acompanhamento sistemático do Fórum de Entidades Reage Baixada, pólo de referência criado imediatamente após a chacina e que completa dois anos, contrariando a tendência de imediatismo e fugacidade que tem caracterizado as mobilizações da sociedade, no difícil enfrentamento e reação a atos de violência desse tipo. De fato - com exceção das associações que unem, há anos, os incansáveis e corajosos familiares de vítimas, em busca da justiça -, não tem sido fácil consolidar espaços plurais que mantenham acesa a chama da memória coletiva de chacinas como essa. O FERB é uma mobilização que vem contribuindo para impedir que caiam no esquecimento e sejam encarados como “mais uma notícia de jornal” tanto a chacina, como recentes assassinatos na Baixada - o dos jovens do Via Show, do jovem Ítalo e outros nesse período - que continuam a reproduzir um padrão de violência histórico na região.

Manter a memória vem significando manter a mobilização, através de reuniões e debates, interpelações e interlocuções com autoridades públicas municipais, estaduais e federais (lembre-se por exemplo a ida dos familiares a Brasília, 2005), publicações (como o Dossiê da Impunidade, 2006), caminhadas, celebrações religiosas, concentrações para pressão por justiça (como a do julgamento e condenação do primeiro policial acusado, em agosto de 2006). Trata-se de um “Forum amplo e convergente de mobilização, articulação e formulação”, contemplando “diversas reações, propostas, ações da sociedade e do poder público” e compreendendo a “violência como resultado conjunto da impunidade e do abandono sócio-econômico” (Jornal do CDH, abril de 2005), em uma perspectiva de busca de justiça e segurança pública, para “assegurar os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais” (documento de maio de 2005).

Para quem é de fora e acompanhou nesses dois anos suas reuniões e ações em praças e ruas, o Forum serviu como verdadeiro observatório de organizações da Baixada. Desvelam-se aí variados personagens que atuam no espaço público, antigos e novos, consolidados ou frágeis, compondo o tecido (ainda não cartografado) de grupos, mobilizações, protestos, reivindicações existentes de fato nessa região.

Quantas organizações passaram pelas reuniões do FERB? Percorrendo as listas de presença guardadas no Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, onde funcionou o Fórum nesse período, o resultado surpreendeu: 202 entidades, em algum momento se mobilizaram, entre abril de 2005 e dezembro de 2006 (dados de 24 reuniões):

__________________________________________________________________________

Entidades presentes (ao menos 1 vez) no FERB (2005 / 2006)

47 - ONGs/MOVIMENTOS/REDES/FORUNS (de mulheres, negros, homossexuais, ambientais, jovens etc.)
35 -IGREJAS/INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS (católicas – maioria – espíritas, evangélicas e outras)
25 - ASSOCIAÇÕES DE MORADORES/COMUNITÁRIAS
16 - ORGS. PÚBLICAS/GOVERNO
12 - SINDICATOS/ORGS. PROFISSIONAIS
12 - PESSOAS / MÃES / FAMILIARES DE VÍTIMAS
10 - CULTURA/LAZER (a maioria de jovens)
8 - ASSISTÊNCIA SOCIAL
7 - UNIVERSIDADES/ESCOLAS
6 - PARTIDÁRIAS
6 - CONSELHOS
30 - OUTRAS

TOTAL 202 Fonte: pesquisa NASP/UFRJ.

__________________________________________________________________________

A maioria delas é de Nova Iguaçu, seguindo-se Queimados e depois Mesquita. Presentes também Caxias, Belford Roxo, Nilópolis, São João de Meriti, Seropédica, Itaguaí, Petrópolis e Rio de Janeiro.

Como funciona um espaço como esse? Acompanhamos um debate de diversas vozes (quanto a valores, interesses, crenças, estilos), cujos matizes variam com o tempo, o que é característico de movimentos em rede, de convocações variadas e fronteiras fluidas e abertas, que ora inflam, ora se esvaziam, em dinâmicas relacionadas ao contexto ambiente: afinal, os diversos atores do Fórum continuam paralelamente com suas movimentadas agendas próprias. O FERB é um momento de interação entre diferentes, de ampliação de suas vozes e de construção, sempre em processo, de acordos e consensos pontuais. É espaço com potencialidade de romper fragmentações para produzir impactos na arena social e política.

Claro, não interpretamos esses dados no sentido de que existe um forte movimento social de 200 entidades. No entanto, a experiência de um espaço de discussão e ação plural e continuado, convocado por determinadas organizações, o qual inclui a questão da violência, dentro de marcos discursivos referidos a direitos humanos, justiça social e movimentos sociais - e na Baixada - nos parece algo novo.

Há muito o que indagar. Através do registro de mobilizações sociais, em pesquisa ativa e dialógica, quem sabe podemos contribuir para a construção de memória coletiva, ao resgatar a idéia de processo e de história ali onde esta parece mais fragmentada e se esvai na dinâmica dos acontecimentos, ali onde ela, frequentemente, não se faz visível e reconhecida mesmo para seus próprios agentes. O Fórum de Entidades Reage Baixada faz parte dessa história e aponta especialmente para seu futuro, ao convocar a juventude da Baixada para a mobilização.

A Prof. Leilah Landim é do Núcleo de Pesquisa Associações, Solidariedades e Política (Coordenação de Projetos de Extensão Participação Associativa na Baixada Fluminense) – UERJ.

Publicado no jornal ComCausa 21.

Veja mais em www.comcausa.org.br/artigos

Participe, dê sua opinião.

_____________________________________________________________________________________^

Página desenvolvida pela ComCausa.

^