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Quintais e rezadeiras

> Robson Luy

Quando penso em cultura na Baixada Fluminense fico confuso e me dá até tonteira. Cultura não é só arte e arte não é só o que se vende.

Existem manifestações não reconhecidas e um aculturamento promovido pela mídia. E não acho que isto seja um outro tipo de cultura. É aculturamento mesmo, é o vazio.

Nunca esqueço que quando era animador cultural no CIEP de Heliópolis, em 1993, um dia promovi um show de calouros nas turmas para discutirmos diversas formas de música. TODAS as crianças só conseguiam lembrar da “chuva no telhado” de Chitãozinho e Xororó. “Quando você chegar, com sua roupa molhada...”, um clássico no melhor estilo cowboy romântico. Parecia que estava num pesadelo. O dia foi passando e em cada turma eu tentava, mas só saía “chuva no telhado”. Percebi que eles só conheciam esta música.

Quando eu era pequeno, eu sabia “Meu limão, meu limoeiro”, do Topo Giggio, as músicas iê-iê-iê, a “Luciana” da Evinha, “Atirei o pau no gato”, mas também sabia os tangos, as guarânias e os boleros que meu pai ouvia. Também os Beatles, as músicas francesas, italianas que meus irmãos gostavam. No rádio, tinha a “Ave Maria” às 18 horas da noite sagradamente, o Inspetor Silva e seu parceiro chinês, o Teatro de Mistério, as rádios-novela, o Haroldo de Andrade e o Omar Cardoso.
Em casa tinha pouco dinheiro, mas tinha um monte de irmãos, amigos, primos, vizinhos, um monte de bichos; um monte de plantas e uma vida cultural farta, alimentada pelo passado de meu pai, que foi peão da fronteira no Rio Grande do Sul, fumava cachimbo, tomava chimarrão na cuia e adorava música e livros.

Tínhamos uma tia casada com um alemão e sua casa ficava na “Europa”, ou seja, na vila de funcionários da Bayer, em Belford Roxo. Lá existiam casas como as do cinema, com cerca branca de madeira, caixa postal tipo casinha no portão, gramado, floresta de pinheiros, telefone, parede lisa e bem pintada, móveis nunca vistos, eletrodomésticos ainda nem inventados. Meu primo tinha um trenzinho elétrico todo iluminado que ocupava uma mesa grande com uma cidadezinha e luzes que acendiam. Tínhamos amigos alemães e japoneses de Itaguaí, um espião italiano amigo de meu pai morando em nossa casa (Seu Álico) e o povo do bairro. Isso é que era globalização.
Minha avó materna, Iracema, era filha de uma índia que foi caçada no mato por um português bisavô meu, em Pernambuco. Ela chamava-se Iracema Cavalcante e dizia que era prima do lendário Tenório (Cavalcante), o dono da (metralhadora) “Lurdinha”. Minha avó jurava que os “Demônios da Garoa” tinham usado seu nome numa música trágica deles porque eram amigos de seu marido, meu avô, que era filho de um casal de franceses e vivia trazendo os músicos da Rádio Nacional para tocar em casa.

Essa era a história dos meus avós, mas lá em casa essa sopa cultural era celebrada nas festas de fim de semana que meu pai promovia compulsivamente e onde, vez por outra, ele trazia músicos e cantoras de churrascaria, sanfoneiros; matava um porco, um bode; isso quando não vinha um tio meu que era mágico de circo, o tio Bira, queimar dinheiro com um isqueiro na nossa frente e depois tirá-lo inteirinho de um envelope.

Nosso bairro, Belford Roxo – que ainda não tinha se emancipado de Nova Iguaçu - não tinha uma praça decente, e ainda não tem, mas as casas tinham quintal e tudo que se fazia era partilhado pela vizinhança: festas juninas, campeonato de velocípedes...

Jardim Bom Pastor ainda não existia, era uma área rural onde íamos fazer piqueniques onde participavam os velhos, os maduros, os novos e a pirralhada. A rua fervilhava o tempo todo. Dentro das casas, que tinham muros baixos ou cercas, as pessoas estavam costurando, plantando, fofocando, colando bandeirinhas, regando as plantas, cuidando dos bichos, rezando, contando estórias... Minha irmã lia contos de fada pra mim e cantava “carneirinho carneirão-neirão-neirão...” para eu dormir.

Na televisão, eu via “Meu pé de laranja lima”. Era assim.
Parece-me que as crianças do CIEP de Heliópolis onde eu trabalhava não tinham pai, mãe, avó, quintal ou alguém que contasse uma história de um outro tempo ou que tivesse paciência ou tempo pra isso. Parece que a televisão e o rádio estavam preenchendo bem (mal) este espaço. Não é mais necessário trocar nenhuma experiência, agora isso compete à mídia, está tudo lá, prontinho e pasteurizado, para não estragar. Não precisa nem se levantar. É o aculturamento, é a repetição, é o vazio.

 

Robson Luy - é cantor, ator, artista gráfico e colunista do portal SobreTudo.

Publicado no jornal ComCausa 23.

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