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O princípio da acolhida

> Por Adriano Dias

Há três anos, por volta das 11 horas da noite, recebi o telefonema de um morador do bairro da Posse, Nova Iguaçu, contando que “um monte de gente tinha sido morta”, e que era “para não vir” para o bairro, pois os vizinhos estavam ligando entre si avisando do episódio. Somente tive idéia da proporção da tragédia no dia seguinte.

Nos locais próximos de onde aconteceram as mortes, a população externava o medo que se traduzia em agressividade. A chacina alvejou também a possibilidade do exercício da cidadania e da solidariedade: entender, e talvez ajudar o próximo, parecia ter se tornado um risco velado à vida, ou, ao menos, esse parecia ser o desenho do imaginário coletivo.

Nova Iguaçu e Queimados tornaram-se o centro das atenções: políticos ensaiavam explicações, imprensa e movimentos sociais buscavam compreender o que tinha acontecido. O saldo dessa repercussão parecia ser a garantia de que haveria justiça e que aqueles que perderam parentes e amigos teriam todo o apoio necessário.

Entretanto, na semana seguinte ao episódio, representantes do poder público fizeram uma rápida visita aos locais das mortes. A principal preocupação parecia ser demonstrar, através da mídia, uma grande “sensibilização” política com o sofrimento dos familiares. Mas, passados os flashes, faltou quem orientasse algumas daquelas pessoas sobre o encaminhamento de questões práticas como acesso à justiça e apoio psicológico, entre outros.

No episódio da “chacina da Baixada” ficou claro que alguns parentes e amigos das vítimas, devido a suas condições sócio-econômicas, do desconhecimento dos seus direitos, de onde e como acessá-los, vêem-se imobilizados. Isto acontece quase sempre com os mais necessitados. Por outro lado, externou a falta de políticas sistêmicas - que entendam as especificidades de cada população - para tratar integralmente aqueles que foram atingidos de forma transversal pela violência.

Em junho de 2007, na “Caminhada dos Mártires” - criada após a chacina do Jardim Amapá, ocorrida em 1988, quando um casal e suas três crianças foram assassinados em Duque de Caxias - um jornalista solicitou que se conseguisse apoio psicológico para um rapaz - parente das vítimas -, que na época tinha 14 anos e foi o primeiro a ver a cena do crime. Vinte anos depois ele ainda “externava” seqüelas psicológicas daquele episódio. Em nossas conversas, fiquei sabendo que boa parte da família foi destruída após o acontecido: casos de alcoolismo, separações, paranóia. Conseqüência daquele crime que ficou sem solução.


Nas semanas seguintes tentou-se conseguir
apoio, o que foi infrutífero.
Não existia qualquer projeto voltado para estas vítimas na Região da Baixada Fluminense.

Posteriormente, na caminhada e missa pela morte de Túlio e Thais - dois irmãos que foram assassinados em Mesquita – ficou-me mais evidente a extensão do dano que estes episódios provocam. Neste caso em particular, como não houve grande exposição na mídia, os parentes encontravam-se durante um ano sem, sequer, ter um gesto de solidariedade, tanto por parte do poder público, quanto da sociedade civil organizada.

Analisando todos estes casos chegamos à conclusão de que a violência não acaba no ato do assassinato, as conseqüências estendem-se para muito além do episódio em si.

A perda do ente querido de forma violenta provoca diferentes reações por parte de amigos e parentes. Alguns se isolam do convívio social, outros vão a público e se tornam ativistas por justiça. Mas, em quase todas as situações, desenvolvem graves problemas psicológicos ou somatizam fisicamente em várias doenças.

Percebeu-se também a tendência da própria comunidade em se afastar destes amigos e familiares de vítimas da violência, não somente por medo ou insensibilidade, mas a maioria não sabe como lidar com esta situação, em razão do difícil convívio com a constante necessidade da exteriorização da dor e dos traumas destas pessoas. Além disso, observa-se uma inclinação geral à banalização da violência e a culpabilização das vítimas por parte da sociedade. Geralmente questiona-se a possível existência de vínculo da vítima com atos ilegais ou fora dos padrões morais convencionais.

Em atenção à estas questões a Secretaria de Valorização da Vida e Prevenção da Violência de Nova Iguaçu criou um programa que consiste no princípio da acolhida - em grupos reflexivos - destes familiares e amigos de vítimas de violência letal. Além disso, propõe-se a contribuir para construção de uma rede de apoio psico-médico-jurídico-social com o propósito de dar o acesso aos serviços necessários às demandas mais substanciais do pós-trauma.

Mais do que uma questão humanitária, um dever do poder público, que a Semuvv assume de forma pioneira no Estado do Rio.

 

Publicado no jornal ComCausa 30.

 
 
Adriano Dias é membro da ComCausa e Coordenador-executivo do Programa de Atendimento a Famílias e amigos de Vítimas de Violência da Semuvv-NI.
 
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