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A importância da pesquisa social
para a comunidade

> Por Andre Luis Gomes e Márcio Lázaro

A redução desta invisibilidade social - em que ruas, bairros e municípios da Baixada Fluminense estão historicamente inseridos - não é uma variável dependente apenas do acúmen do poder público, das organizações e movimentos da sociedade civil.

Se você chegou a seu lar exausto após ter enfrentado o caos do transporte público, com trens hiperlotados e engarrafamentos nas estradas; já se sentiu incomodado com a sujeira nas ruas, com a lama constante, com a falta de asfalto, com os bueiros entupidos e com o mau cheiro do rio que fica próximo à sua residência; já ficou ofendido com o cerceamento do seu direito de ir e vir por causa da instabilidade da segurança pública e não acredita que existam outros caminhos além do voto para que este panorama seja alterado; então, provavelmente, no interior de sua insatisfação, você já se sentiu desamparado, mudo diante de um microfone, invisível socialmente.

A redução desta invisibilidade social - em que ruas, bairros e municípios da Baixada Fluminense estão historicamente inseridos - não é uma variável dependente apenas do acúmen do poder público, das organizações e movimentos da sociedade civil. Com a utilização da pesquisa social como ferramenta de diagnóstico e ponto de partida para a formulação de políticas públicas, a experiência acadêmica pode agir de acordo com o interesse e as necessidades da população.

Porém, sem a contribuição da dona-de-casa, do idoso e do chefe de família que recebe o pesquisador de campo, agente catalisador de cada uma dos milhões de vozes cujas nuances são apuradas e destacadas na análise da pesquisa, a vontade, as dúvidas e os anseios da população ficam restritas à visibilidade somente através do flagelo das epidemias, chacinas e convulsões sociais.

A grande questão que hoje permeia o plano de ação de quem realiza a pesquisa social é a pouca importância que grande parte da população dá a este tipo de intervenção. Isso acontece muito pelo fato deste trabalho ter feito parte da problemática acadêmica, que erigia seu “olhar crítico” sem uma participação mais efetiva daqueles que vivem diretamente determinadas realidades. Assim, para que os efeitos de um trabalho de pesquisa seja sentido pela população como um todo, e isso não vale somente para campanhas eleitorais, é necessário que haja seqüência, que faça parte do cotidiano dos cidadãos, para que desse modo edifique uma proximidade com as questões envolvidas.

O papel da pesquisa social também deve ser o de ajudar a desnaturalizar questões e fenômenos que porventura surjam no âmago de uma sociedade.

Se o cidadão brasileiro foi imbuído a pensar a sociedade de modo muito “natural”, achando que os fatos acontecem por ordem divina ou por conseqüência da própria vida, como então pedir para que a pesquisa tenha o seu lugar marcado em um espaço onde as agruras da sociedade afligem de maneira mais intensa o cidadão comum? Como fazer com que o pensamento derrotista não ganhe uma ênfase maior? Como fazer para que qualquer cidadão perceba que sua opinião, seja ela qual for, é importante para mudar qualquer tipo de realidade?

A questão talvez seja pensar a pesquisa social como modo de participação que não começa de cima para baixo, mas que se dá a partir da pré-disposição de pessoas que queiram fazer parte de um processo que não é visto, a princípio, de modo concreto, mas que é construído aos poucos, a partir também da coleta de pontos de vista. Deste modo, o individuo atento a tudo o que acontece ao seu redor e que sabe que sua ação, por menor que seja, fará toda a diferença no processo de mudanças, muito interessa tanto a pesquisa de cunho social quanto à participação popular de um modo geral.


Portanto, quando receber a visita de um pesquisador, devidamente credenciado e com referências da instituição onde ele trabalha, mude sua rotina e dedique um tempo para transmitir o seu recado. Afinal o que são 20 ou 30 minutos de entrevista comparados a décadas de abandono?

 

Publicado no jornal ComCausa 30.

 
 
 
Andre Luis Gomes e Márcio Lázaro são sociólogos e pesquisadores.
 
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