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A alegria das salas e ruas do Fórum de Educação ainda tão distante de nossas escolas

> Por Emílio Araújo

Há 200 anos a Família Real atravessou o Atlântico e veio para sua mais importante Colônia, o Brasil. D. João VI, então o Príncipe Regente, elevou o Brasil à condição de reino autônomo. Estava criado o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. A Corte portuguesa encarregou-se de promover a modernização da terra de bárbaros, trazendo artistas e pesquisadores, criando escolas superiores, museus, bibliotecas, bancos, etc. Donos da terra e do dinheiro, em muitos casos tomado dos que para aqui vinham tentar a sorte, o Imperador podia tudo.

Duzentos anos depois, ao olhar o que acontece em Nova Iguaçu, não resisto à analogia: um grupo de sábios e experts que para aqui vieram nos últimos três anos, declararam Nova Iguaçu, a Capital Mundial da Educação. Como afirmam para justificar o “decreto” que estabeleceu a realização em terras tão distantes de um tal Fórum Mundial de Educação.

Para os promotores do FME e o governo municipal, finalmente a educação está vendo seus problemas serem resolvidos e a população, os estudantes e os educadores podem comemorar e se orgulhar de sua cidade. Quem sabe disso mesmo? O que isso representa de positivo pra educação e para o povo da cidade?

A grande revolução educacional apresentada no espetáculo de três dias de duração é um programa batizado de Bairro-Escola. Mas se olharmos para trás, em 2006, outra edição do FME realizada aqui já falava desta idéia, ainda a se realizar. Sim, pois à época, o Bairro-Escola era apenas um conjunto de intenções que veio a se realizar depois.

A carta “A Baixada convoca, uma vez mais”, escrita por um professor paulista, dá uma boa pista do que está reservado à escola e à aprendizagem dos alunos neste Projeto saudado como tão inovador e tão comprometido com o enfrentamento ao neoliberalismo.

De fato, o que o FME da Baixada mostra é que a referida intersetorialidade vem sendo perseguida com muito esmero. O Bairro-Escola é uma infinidade de grupos culturais, esportivos, ONG’s e secretarias de governo desenvolvendo ações de saúde, esporte e cultura com os alunos de escolas municipais dentro de um conceito de escola integral defendido pelos organizadores do FME e pela administração municipal.

Mas e a escola propriamente dita? E a aprendizagem, para a qual a escola estaria liberada pela intersetorialidade, melhorou em nossas escolas?

Recentemente, tivemos um exemplo contundente de que a realidade das escolas da Cidade de Nova Iguaçu e das crianças e jovens que estudam nelas é bem mais dolorosa que essa. Às vésperas da Prova Brasil, a SEMED foi convocada a realizar um intenso trabalho de treinamento dos alunos para as provas, pois predominava no Governo a opinião de que os resultados escolares dos alunos das escolas municipais não tiveram uma melhora qualitativa com as ações do Bairro-Escola.
O que é então a Educação Cidadã e a Cidade Educadora para o Comitê do FME? O que é o Bairro-Escola? Seria a educação sem escola? Seria a educação sem professores? Seria a educação onde a escola e os professores só têm importância quando o incêndio do atraso escolar se apresenta como uma ameaça concreta?
E as perguntas, que, aliás, poderiam facilmente ser afirmações, se multiplicam. Esta proposta é o abandono consciente – que, aliás, se repete há séculos – da possibilidade de ensinar aos filhos das classes populares, escondido sob a fantasia de uma escola integral?

Quantos daqueles que dizem que aqui em Nova Iguaçu podemos ter orgulho da educação matriculariam seus filhos nas escolas municipais?

Não se trata de uma opinião contrária à realização de atividades esportivas e culturais com os alunos que estudam nas escolas municipais. Trata-se de questionar que, ao priorizar tais ações, o Governo Municipal não altera as condições de aprendizagem de nossos alunos nas escolas municipais.
Mais perguntas: por quê havia tão poucos professores das escolas municipais na Marcha que foi a abertura do FME? Por quê, dentre as atividades autogestionadas e os pôsteres apresentados ao Fórum, não havia trabalhos das escolas municipais e seus professores? Essa proposta seria tão estranha à educação que justificaria que a própria Secretaria de Educação tivesse apenas um único trabalho inscrito e, mesmo assim, na área de gestão?
O que se ouve da educação da Baixada, e mais especificamente de Nova Iguaçu, é um estranho silêncio. Silêncio que parece revelar a exclusão dos milhares de sujeitos que poderiam estar de fato mobilizados para este Projeto, ainda que tão vazio de sentido e de significados para as dificuldades que são encontradas no dia-a-dia das escolas. Silêncio que pode demonstrar a descrença nos caminhos que foram impostos à educação da Cidade e que denunciam a oportunidade perdida.

Como o Bairro-Escola, o FME foi uma construção artificial. Apenas mais um esforço de marketing do Governo Municipal e de legitimação por parte de algumas das entidades envolvidas mais diretamente com sua organização.

Mais que isso, revela uma relação questionável com o dinheiro público. Pois, uma ONG, a única que de fato tem voz na organização do evento, tem o patrocínio para fazer um FME falar bem da educação em Nova Iguaçu – sem qualquer espaço para vozes dissonantes. Estranhamente, é a mesma organização que também é paga pela Prefeitura – com dinheiro público, portanto – para realizar projetos e ações educacionais na Cidade.

Um exemplo dessa estranha relação foi a pressa e o atropelo, a falta de democracia e a exclusividade no controle das propostas para aprovar um Plano Municipal de Educação (PME) e a constituição de um Sistema Municipal de Educação em Nova Iguaçu, às vésperas do FME. Não poderia ser diferente, pois dentre os requisitos da Educação Cidadã e da Cidade Educadora dos sábios que atravessaram o Atlântico, o FME não poderia deixar de existir, além de fazer parte de um contrato de mais de R$ 4 milhões, assinado em 2005, e cumprido muito parcialmente até hoje.
Essa pressa se repetiu quando tratava-se de asfaltar e sinalizar ruas, instalar novos sinais de trânsito e até construir um espaço apelidado de Estação Bairro-Escola, considerado o centro nervoso do Fórum.

O FME transformou-se, então, mais em um espaço oficial, controlado e realizado pela administração municipal, subvertendo negativamente aquele Fórum idealizado a partir do Fórum Social Mundial, como expressão das lutas de resistência e da construção de alternativas educacionais por setores da sociedade e por governos.

Por fim, vale lembrar que a experiência de escola de tempo integral mais difundida por essas paragens, foi idealizada por Darcy Ribeiro e seus colaboradores, e contou com a obstinação de Leonel Brizola, na primeira metade dos anos 80 e 90. Hoje, a única lembrança desta proposta está nos nomes das mais de 500 escolas construídas para a realização dela, batizados por Decreto do ex-Governador e, na lealdade de alguns poucos seguidores das idéias de Darcy e Brizola. Como a população, os alunos e os educadores não eram importantes na construção e na efetivação da proposta, não resta nada dela como símbolo de resistência educacional. É isso que acontecerá com o Bairro-Escola quando os sábios e experts atravessarem o Atlântico de volta à Corte? Haverá alguém, em algum lugar do Brasil e do Planeta, para ouvir o silêncio que continuará a ecoar, simbólico, de dentro das escolas de um lugar chamado de Nova Iguaçu?

Artigo resumido, leia na integra no portal SobreTudo... www.sobretudo.org.br

Publicado no jornal ComCausa 31.

 
 
Emílio Araújo é professor da UERJ.
 
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