Artigos

 

 

 

 

 

A mais pobre das artes parte 1

> Por Jorge Cardozo

Li recentemente numa enciclopédia antiga, dessas de capa dura e algarismos romanos dourados, que quando em quando se acham no fundo de uma biblioteca qualquer, uma definição e um destino curiosos para a Literatura. Num desses episódios de sincronicidade - há algum tempo chamava-se coincidência – minha filha, à época vestibulanda, veio se queixar de um certo professor que estabelecera um conceito estreito para a arte literária. Estreito na opinião de minha filha, diga-se.

Ficou-me a impressão de que as teorias gerais, que dão conta da literatura como uma das grandes artes, explicitadora do drama humano ao longo da história, teriam que focar um novo olhar, mais dinâmico e menos purista, na tentativa de compreensão do conjunto de fenômenos, que hoje podem ser agrupados sob a rubrica Literatura.

Quanto à definição, parece bastante incorreta, de um ponto de vista etnológico, a afirmação de que a literatura é centrada na escrita. Diversos grupos sociais se mantiveram e se desenvolveram portando rigorosa tradição literária, sem, no entanto, possuírem o domínio da palavra grafada.

Mais vale aproximar o conceito da contradição individual X coletivo e fazer a boa e velha discussão sobre o talento, o gênio criativo, de um lado, e de outro, a preponderância do coletivo, a sobredeterminação do momento histórico. Não que se excluam ou se desmintam, mas as diferentes concepções, mais ou menos compromissadas com um ou outro pólo, já se tornaram objetos de análises interessantes.

Em relação ao seu destino, a Literatura, na visão do articulista da tal enciclopédia, tende a desaparecer ou pelo menos perder poder de influência no mundo atual.

Mas qual mundo atual, cara pálida?

O enciclopedista falava do século XX, o qual ele observava mais ou menos uma década e meia após a metade. Ou seja, existia a União Soviética, o muro de Berlim, o regime de apartheid na África do Sul e as tropas americanas combatiam no Vietnam. Logo, não havia acontecido o 11 de setembro, não existia AIDS nem ovelha Dolly e as tropas americanas não combatiam no Iraque.

Com todas essas mudanças, fica óbvio que o analista não pudesse observar de forma límpida o destino de quaisquer das grandes manifestações artísticas. Optou então pela teoria da substituição, segundo a qual uma forma artística é substituída por outra ou mesmo por um novo meio de comunicação, como se fosse uma peça de roupa velha, que se joga fora e se troca por uma nova. Erro posteriormente também cometido por filósofos e teóricos de renome.

Ao contrário, a própria persistência da literatura, em diferentes formatos e através de diferentes substratos, dá a pista para uma aproximação conceitual, que permita talvez defini-la. A literatura não é um objeto estático, não é um fato, nem mesmo uma sucessão deles. Não se define somente através de uma forma - como o livro.

A literatura é o conjunto de processos criativos centrados na palavra, através dos quais a Humanidade, os grupos sociais e os indivíduos buscam exprimir a sua relação com os outros e consigo mesmos, com o tempo e com o espaço, com a natureza e com a cultura.

Neste exato momento, milhões de internautas trafegam no ciberespaço e através da palavra, e-mail, bate-papos, recados, cartões e muito mais transmitem conhecimento, difundem linguagens, participam e interferem no mundo da cultura. Quem provará que nisso tudo não há literatura?

 

Publicado no jornal ComCausa 29.

 
Jorge Cardozo é poeta, jornalista e produtor cultural, exercendo atualmente é subsecretário de cultura na Prefeitura da Cidade de Nova Iguaçu.
 
Veja mais em www.comcausa.org.br/artigos
 
Participe, dê sua opinião.

_____________________________________________________________________________________^

Página desenvolvida pela ComCausa.

^