Entrevista:

André Batista

 

 

Jornal ComCausa 19.> Por Adriano Dias e Lene Oliveira

O filme Tropa de Elite provocou debates e opiniões diversas sobre a controversa relação entre as formas de repressão utilizada e a exaltação da brutalidade da polícia. Se por um lado a produção do filme insiste em dizer que se trata de uma obra de ficção neutra, apolítica, por outro, lhe é creditado por alguns intelectuais e ativistas sociais um caráter fascista, que serve à criminalização e ao extermínio da pobreza.

Paralelo a toda discussão o livro “Elite da tropa” - que expõem as mesmas questões do filme - escrito por André Batista, Rodrigo Pimentel e Luiz Eduardo Soares, já vendeu mais de 60 mil exemplares, segundo a editora, está prestes a atingir a marca dos 100 mil com a segunda edição. É dividido em duas partes: a primeira expõe a violência, e em alguns momentos até a forma doentia de como “seria” o dia-a-dia dos agentes do BOPE. A segunda parte coloca de maneira romanceada como funcionariam as engrenagens da corrupção associadas às relações de poder nos órgãos de segurança pública do Estado.

Enquanto isso na Baixada Fluminense, mais exatamente em Nova Iguaçu, um dos autores do livro “Elite da Tropa”, ex-integrante do BOPE, o Major PM André Batistaé Secretario Adjunto de Valorização da vida e Prevenção da Violência e se dedica a outra rotina.

Para começar, gostaríamos que falasse um pouco de você.
- Sou uma pessoa comum, erro bastante, modifico minhas opiniões e estou em constante aprendizado. Não fomento o relativismo, não sou elitista, nem reproduzo conceitos radicais, embora enxergue nestes a virtude de estar fazendo e lutando pelo que se acredita.

Em que momento você decidiu ser policial?
- Eu queria ser militar e precisava continuar morando no Rio. Então, na hora de fazer a inscrição no vestibular havia as seguintes opções: ou era bombeiro, ou oficial da PM ou universitário sem grana para livros e xerox.

O que o levou a entrar para o BOPE?
- Queria chegar ao ápice da profissão. Todo jogador quer fazer parte da seleção brasileira... Eu queria ir para o BOPE.

- Como surgiu a idéia de escrever o livro “Elite da Tropa”?
- A idéia surgiu enquanto José Padilha, diretor de “Tropa de Elite”, escrevia o roteiro. Nessa época eu ainda estava ajudando-o nesse processo, junto com Rodrigo Pimentel (N.E.: também ex-oficial do BOPE). Mostrávamos o roteiro para algumas pessoas opinarem, entre elas o Luiz Eduardo Soares que acabou escrevendo o livro junto comigo e Pimentel. Por conta do espaço e possibilidades que um livro traz acabou saindo mais profundo e revelador que o filme. Resumindo, os projetos correram simultaneamente, mas distintos entre si.

Como foi a experiência de escrever com mais dois autores?
- Luiz Eduardo Soares é um gênio, um mestre. O Pimentel é uma figura humanizada, um grande amigo, sensível e com enorme coração. Para mim, além da honra, foi extremamente realizador.

Como foi a repercussão do livro entre seus colegas policiais?
- O pioneirismo da obra chocou muita gente. Alguns digeriram, outros não. Alguns criticaram, outros elogiaram, mas isso já era esperado, até calculado. Perdi alguns amigos, mas fiz outros. Fui chamado de traidor, mas também de corajoso. Não tenho noção do que isso representará no futuro para o desenvolvimento pessoal de cada um, além do institucional. Mas me dou por satisfeito em ver nosso livro sendo debatido, sendo lido por camadas diversas da sociedade, provocando o debate, o debruçar sobre a profissão que eu amo e ao final colaborar com o esclarecimento, ao mostrar os fatos a partir do olhar do policial.

Que tipo de repercussão estava sendo esperado pela equipe de criação do filme “Tropa de Elite”?
- Precisávamos pôr em pauta questões atualmente catastróficas para o convívio social, determinantes de um beco sem saída em que nos metemos pelas escolhas sociais que fizemos.

Existe muita semelhança física entre você e o personagem André Matias, protagonizado pelo ator André Ramiro. O que existe de você neste personagem?

- As semelhanças se restringem à cor da pele, aos óculos, o primeiro nome, a sonoridade do último nome (Matias e Batista), ter estudado na mesma universidade, ao fato do personagem gostar de mulher – afinal é o único que pega alguém no filme – e serem policiais que foram para o BOPE... e só. O resto do Matias não sou eu. Nunca fui a ONG em favela, não morei junto com outro oficial, nem dei aquele tiro na cara do Baiano, eu juro!


Como foi o convite para vir trabalhar na Baixada Fluminense?
- Fui convidado por Luiz Eduardo Soares que estava assumindo a Secretaria Municipal de Nova Iguaçu de Valorização da Vida e Prevenção da Violência. Aceitei muito em razão dos desafios que se apresentam na área de segurança pública na Baixada.

Qual é a função da secretaria e qual é a sua atuação nela?
- Como o nome diz, a secretaria atua na valorização da vida e prevenção da violência através da implantação de programas orientados pela e para a criação de condições de desenvolvimento na área de segurança pública e social, privilegiando o combate à violência letal intencional e a promoção de igualdade social. Eu estou responsável pela área que trata especificamente de políticas de segurança pública.

No começo do ano, os governos federal, estadual e municipal de Nova Iguaçu assinaram uma carta de intenções que criava o Gabinete de Gestão Integrada de Segurança Pública em Nova Iguaçu. O que é exatamente?
- O GGI tem como objetivo ser um espaço de interlocução permanente entre as instituições, sem prejuízo das respectivas autonomias e sem qualquer tipo de subordinação funcional ou política, operando sempre e apenas por consenso, visando reduzir a violência criminal em Nova Iguaçu.

Na prática, como funciona?
- Realiza a interlocução entre as instituições policiais: as polícias Militar, Civil, Federal e Rodoviária Federal; a magistratura; o Ministério Público e Defensoria Pública; a Prefeitura de Nova Iguaçu, através da nossa secretaria. Todos com o intuito de facilitar o trânsito das informações e o diálogo dos que desejam modificar o atual estado das questões de segurança pública no município.

Não estão sendo pensadas formas de diálogo com a sociedade civil neste espaço?
- Há algum tempo estamos formatando uma Câmara Popular de Acompanhamento ao GGI, que pretendemos que seja formada em breve.

Em sua opinião, há semelhanças ou especificidades nas formas de violências praticadas na capital do Rio de Janeiro e na Baixada?
- Todas as áreas têm especificidades. Nenhuma realidade é igual à outra, e suas características geopolíticas descrevem trajetórias diferentes e particulares, que ao final simbolizam a diversidade e identidade de cada lugar.

Haveria na Baixada um campo mais propício para implementação eficaz de políticas públicas de segurança e prevenção da violência?
- Sim. O pacto social pela paz é mais possível quanto menor o espaço geográfico, com a municipalização da segurança e a criação de políticas sistêmicas. É uma possibilidade crível para a construção de um ideário de qualidade de vida e redução da violência.

Para além das suas atribuições, você tem dado treinamento aos policiais do 20º Batalhão (responsável pelo patrulhamento da região - foto ao lado). Como tem sido esta colaboração?
- Preciso, por convicção profissional, colaborar, com meus parcos conhecimentos e experiência, para o desenvolvimento da polícia e dos policiais onde quer que eu esteja. Então, tenho tentado contribuir com os policiais do 20º Batalhão, passando instruções sobre uso de armamento, abordagem, entre outras ações.

Se a sociedade quer uma polícia melhor, o que ela deveria desejar para a polícia?
- Em geral, as pessoas realmente desejam ver seus impostos bem empregados, não querem saber de segurança pública; querem poder ir à praia, ao shopping, e isso é absolutamente normal. Votar bem e conscientemente reduziria as margens e parcela de responsabilidade da sociedade. Mas quem é responsável pela segurança pública é a polícia, seus gestores e as autoridades que os nomeiam. Eles, sim, são os verdadeiros responsáveis por uma polícia melhor.
Qual é a sua causa?
- Vivo para que minha família desfrute dos benefícios de uma sociedade melhor.

Publicado no jornal ComCausa 27 - dezembro de 2007.

 

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Fotos: Acervo ComCausa.

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