Você é muito importante
neste retorno do nosso informativo, pois participou do Alternativo
n° 0, em 1997. E, além do músico e compositor,
você é um pensador extraordinário da nossa
geração devido ao seu comprometimento com as
palavras, com a arte e a cultura. Para você de que forma
a arte está ligada à transformação
do mundo? Você acredita no comprometimento da juventude
de hoje?
-
Minha história com a música tem haver com isso,
a maioria das minhas músicas é assim, algo como
jogar a mensagem na garrafa. . . Eu tô nessa, mas sei
que hoje em dia é como remar contra a maré,
é anti-moda. Têm muitas pessoas que fizeram isso,
se for pegar os vanguardistas, tipo Milton Santos. Também
existem novos com novos modos de ver. . . tem, existe; mas
não aparece. Quanto à juventude, hoje acredito
que deve ser o mesmo que sempre foi. Mesmo na época
do regime militar, que era uma situação crítica,
obviamente mobilizava mais uma galera, mesmo assim não
era a maioria. Se 30% da juventude fosse ligada, a situação
não estava assim. Nunca é a maioria, quando
for, o mundo muda.
Você
acha que o hip hop hoje se configura como movimento social
autônomo e participante no Brasil? E essa história
que ele vai estourar a qualquer momento é real?
-
O Hip Hop existe de tudo quanto é jeito no Brasil todo.
Passou muito tempo até ele chegar à mídia
e isso possibilitou a formação dessas bases
que são importantes. Pode ficar mais forte ou mais
fraco, mas sempre vai existir. Essa parada de estourar não
tem haver. Vê os Racionais que lançaram álbuns
maravilhosos, foi bombástico desde o início,
e foi crescendo até vender 1 milhão de copias
com CD independente! E tem outras paradas como o Marcelo (D2),
que apesar de ser bom MUSICALMENTE falando, só “estourou”
graças à um jabá violento para tocar
na rádio. Antigamente tinha jabá também,
mas hoje SÓ tem isso. Não tem haver com estourar,
tem a haver com GRANA. Tem nego que é inocente, a maioria
esmagadora não sabe, não faz idéia que
é um comércio deslavado que pagou, tocou. E
vira uma desilusão violenta, quando a pessoa toma conhecimento
da situação. . . Mas, eu acho a desilusão
fundamental, é a melhor coisa que o mundo te dá.
É o estalo para ver o que está acontecendo -
é o começo de uma mudança REAL. A pior
coisa é viver na ilusão, aí sim é
triste.
“Enxugando
Gelo”, seu Cd junto com os Seletores foi considerado
um dos melhores de 2003, ganhando inclusive o premio Dynamite
(o maior prêmio da música independente no Brasil),
como melhor disco de Rap/Black Music, lhe rendendo duas turnês
pela Europa. Desde então você não lançou
mais. Existe algum projeto para 2007?
-
Tem um projeto com o Turbo Trio, que é uma banda eletrônica
com uma rapaziada de São Paulo e Rio Grande do Sul.
Vamos lançar o CD em março simultaneamente no
Brasil e Japão. E estamos estudando propostas para
Europa e a Babilônia, digo, Estados Unidos. E em maio
vai sair o novo CD com os “Seletores de Freqüência”.
Até o final do ano talvez tenha um projeto com o DJ
Castro e outro com uma galera de música instrumental
brasileira que sempre tive vontade de fazer - tipo o Paulo
Moura, o JT Meireles. . . Toquei em novembro passado na Sala
Cecília Meireles, num show que tinha Robertinho Silva,
Egberto Gismonti, Jards Macalé, Wagner Tiso e o próprio
Paulo Moura. . . quero um dia gravar algo com essa galera.
Suas
passagens pela Baixada Fluminense sempre foram marcantes,
o que você conhece daqui? E do público que você
encontra?
Minha
família por parte de mãe é toda de Nova
Iguaçu, São João e Mesquita. Daí
sempre fui muito à Baixada quando era pequeno e sempre
tive carinho pela região. Já fiz várias
apresentações... sempre foi louco. Eu gosto
pra caramba da galera, tem uma pressão clássica.
. . Até a última que fizemos lá (no projeto
da ComCausa: “Música Rap”, no Espaço
Cultural Sylvio Monteiro em Nova Iguaçu) lembro que
a galera chegou junto, recorde de público da casa.
É a pressão da vida, a galera não está
em meio a milhões de opções e dá
muito valor. E quando o público chega junto o show
cresce imensamente.
E
o que você acha que deve ser feito no movimento cultural
para que este público tenha opções e
oportunidades de desenvolvimento?
Tem
que fazer, botar a mão na massa, não dá
pra ficar de papo. De um lado tem que desburocratizar e acabar
com essa história clássica de “não
faz e não deixa fazer”. Em espaço público
tudo e todos devem estar representados. Tem que ter uma visão
geral, da música à ARTE. Faz bem para o espírito,
torna as pessoas melhores, não pode ser vetado pela
eventual pouca visão de quem administra o espaço.
No nosso lado, temos que nos informar sobre as leis de incentivo,
são chatas, mas fundamentais para poder conversar de
igual para igual, para podermos realizar coisas.
Você
é uma figura muito querida em diversos segmentos culturais,
seu coração é hip hop ou rock and roll?
Me
emociono com música, meu coração é
música e está dentro de vários estilos
inclusive o rock e o Hip Hop. Desde a época em que
eu ouvia muito punk nos anos 80, quando me identificava com
as letras - parada ideológica mesmo - e com a música,
mas gostava de jazz também. Minha parada é com
a música, é para isso que eu tô no planeta.
Qual
é sua causa?
A
melhoria do ser humano da menor à maior instância,
sabendo das limitações, sem ilusão e
com pé no chão, sempre contribuindo com uma
coisa positiva, porque de negativo o mundo já está
cheio. Energia positiva, construtiva e criativa, no sentido
de criar possibilidades novas para encarar a vida dia após
dia.
Você
sempre somou e foi presente nas iniciativas que visam criar
oportunidades de movimento e reflexão. . .
Eu
sei e reconheço o efeito que esse tipo de iniciativa
teve e tem na minha vida, na minha formação,
quando eu queria algo além do que rolava nas mídias
ditas “normais”. O que eu faço é
apenas tentar proporcionar aos outros as mesmas oportunidades
que eu tive. E com isso gerar um lugar, um bairro, ou uma
cidade melhor, para começar. . .