Entrevista:

Fernando Acosta

 

 

> Por Rosa Lima

Fernando Acosta, mentor e coordenador-geral do Graal, fala das inspirações teóricas do programa, das experiências anteriores com sua implantação e dos resultados esperados junto aos jovens, a quem o programa Graal se destina.

 


Do que trata exatamente o projeto?
Fernado Acosta - São grupos onde os participantes, uma vez por semana, durante cerca de duas horas, param para pensar no seu cotidiano, debatendo sobre temas escolhidos por eles mesmos, equacionando esse cotidiano – seu trabalho, sua vida familiar, sua vida pessoal – com o todo da sociedade. Uma questão fundamental, para o programa Graal, é pensar a relação existente entre o nosso cotidiano e a violência que cresce a cada dia e deixa marcas profundas nas vidas de todos nós.
O que motivou sua implantação em Nova Iguaçu?
- Foram vários os motivos para sua implantação aqui em Nova Iguaçu. Dentre eles o fato de eu ter sido convidado pelo Luiz Eduardo Soares, com quem eu já havia trabalhado duas vezes, outro é que o trabalho com grupos reflexivos já foi testado em vários contextos – tanto com jovens, em nível de prevenção, com jovens em conflito com a lei, quanto com policiais envolvidos com crimes, e se mostrou muito bem-sucedido na redução da violência.
Como funcionam os grupos na prática?
- Os grupos são mediados pelo que chamamos de facilitadores, que têm a função de facilitar a troca de experiências entre os membros do grupo, promovendo a reflexão sobre os temas trazidos pelos integrantes. Cada grupo conta com dois facilitadores sendo que um deles necessariamente é da área de psicologia e o outro pode ser de qualquer área, ser um líder comunitário ou um educador, por exemplo, desde que devidamente capacitado para isso.
Uma vez formados os grupos, quantos encontros existem para cada um?
- São 24 encontros no total, num tempo médio de seis meses.
O que se espera de resultado ao final do processo?
- Esperamos que as pessoas aprendam a conviver com as diferenças, sejam elas diferenças de opinião, de nível de renda, diferenças étnicas, de preferência sexual, de práticas sexuais. Que elas aprendam a se respeitar e respeitar os direitos do outro.
De que maneira se espera que essas práticas reflexivas tenham continuidade?
O que fazemos é plantar uma semente, que pode brotar no seio das famílias, na escola ou nas instituições de segurança pública. Mas acreditamos também que, se os grupos forem bem trabalhados, eles podem tornar-se autônomos, dando continuidade ao processo, independente de nós. Os próprios grupos podem identificar no meio deles pessoas mais talhadas para essa função de facilitador de maneira a darem continuidade aos encontros por conta própria.

Você poderia nos contar um pouco sobre a experiência em outros locais e situações?

- O que nós percebemos foi que 95% das pessoas que participaram do processo desses grupos reflexivos nesses projetos anteriores reduziram a prática da violência na sua vida ou mesmo eliminaram essas práticas.

De que forma isso foi medido?
- Isso foi medido através de grupos focais com esses jovens, ou esses policiais, até um ano depois do término do processo, através de depoimentos de terceiros. Se estávamos trabalhando com homens, colhíamos os depoimentos das mulheres; se os grupos eram de jovens, ouvíamos os depoimentos dos pais; se o trabalho era com pais, tínhamos os depoimentos dos jovens, e assim sucessivamente. No caso dos policiais, tivemos o depoimento deles próprios, de suas famílias e de seus colegas de trabalho. Observamos coisas interessantes: eles passaram a não querer participar de atividades de confronto nas condições em que participavam até então, sem respeitar os direitos da população, ou quiseram desenvolver atividades preventivas junto com jovens, ou mesmo implantar programas de artes marciais dentro do batalhão. Alguns passaram a atuar como conselheiros dos filhos de outros policiais que os procuravam para conversar, passaram a entender melhor o ponto de vista das famílias, sobretudo das mães e das esposas e companheiras, passaram a desenvolver atividades de convivência nos seus locais de trabalho e nas suas comunidades. Um outro resultado não previsto foi o aumento da espiritualidade ou da religiosidade por parte dos participantes, o que levou a adoção de uma outra postura diante da vida.
Por que o programa Graal foi desenhado tendo como foco principal o jovem?
- Primeiro porque os jovens são as principais vítimas da violência, sobretudo dos homicídios. Os assassinatos são cometidos em sua maioria por jovens e contra jovens. Principalmente jovens do sexo masculino. Nós acreditamos que a mudança desse quadro passa necessariamente por um profundo trabalho reflexivo que os permita repensar sua vida e suas atitudes diante dela.
Se a violência se concentra mais entre os jovens do sexo masculino, por que os grupos contam também com moças?
- Nós poderíamos ficar tentados a dirigir o programa só para jovens homens, mas a experiência nos mostra que a própria presença das meninas, das adolescentes e das mulheres muda a atitude dos rapazes com relação à violência. Elas funcionam como um freio à violência masculina, fazendo com que os homens sejam mais cautelosos, pensem duas vezes antes de usar uma palavra mais agressiva. É nessa brecha que a gente entra. Quando a gente vê que ele muda a linguagem para tratar com um e com outro, a gente chama a atenção para a diferença e começa a trabalhar isso no grupo.
No caso da violência doméstica contra a mulher, os estudos mostram que ela começa já nas primeiras relações entre homens e mulheres, a partir dos 15 anos de idade. Elas se estabelecem por volta dos 25 anos, quando as relações ficam mais estáveis, mas têm seu nascedouro ainda na adolescência e muitas vezes está relacionada à sexualidade. Muitos rapazes acham, por exemplo, que é dever das mulheres lhes prestar favores sexuais com a mesma naturalidade com que pegam um copo d’água. Esse tipo de postura também é colocada em discussão e a presença das mulheres no grupo é de fundamental importância para que se estabeleça a reflexão e o diálogo.
A expectativa é que esse trabalho do Graal em Nova Iguaçu sirva como piloto para outras cidades, como uma política pública de prevenção da violência no âmbito municipal?
- A proposta é que essa possa ser uma experiência “modelar”, entre aspas, porque evidentemente cada município tem seu próprio contexto e demandas e vai exigir formatos próprios de políticas. Mas acreditamos que estamos estabelecendo os pilares desse trabalho, a nível metodológico, de fundamentação teórica, de princípios, de indicadores de gestão, de monitoramento de resultados, etc, que poderão ser replicados em outras localidades.

Entrevista resumida, leia na integra no endereço: www.prevencaodaviolencia.ni.org.br

Fotos: Acervo SEMUVV.

Publicado no jornal ComCausa 30.

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