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Entrevista:
Luiz
Eduardo Soares
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Por Adriano Dias e Lene Oliveira
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Em 2000, o então coordenador de Segurança,
Justiça, Defesa Civil e Cidadania do Estado, Luiz Eduardo
Soares, leva ao público a “existência da banda
podre da polícia Carioca”. Devido ao encaminhamento
dado pelo então Governador Garotinho, Luiz Eduardo sai
do país e torna-se professor convidado na Universidade
de Columbia e pesquisador no Vera Institute of Justice, de Nova
York.
Esse foi um dos movimentos que mais chamaram a atenção
para o antropólogo, cientista social, escritor e professor.
Um intelectual de fala e gestos professorais que ousou discutir
o espinhoso tema de políticas de segurança pública
no Brasil. Doutor em Ciência Política pelo Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio. Pós-doutorado
em Filosofia Política pelas Universidades de Virginia
e Pittsburgh. E coordenador da Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Uerj. Luiz Eduardo agora enfrenta
outro desafio: consolidar em uma das regiões do país
que mais desrespeitam os direitos humanos a Secretaria de Valorização
da Vida e Prevenção da Violência.
Indiferente às altas taxas de homicídio
observadas na Baixada, o efetivo policial militar é
de cerca de 1 para 1.200 habitantes, enquanto na Zona Sul
é de 1 para 300 moradores. Existe somente uma delegacia
de homicídios para quase quatro milhões de habitantes.
Não contribuiria para diminuir os níveis de
impunidade se houvesse maior apoio do Estado?
Há uma defasagem entre a distribuição
de efetivo das polícias e as necessidades de segurança
pública democrática. Existe um grande efetivo
na zona sul o qual atende às classes mais privilegiadas,
mais visadas pela mídia. Portanto, atende mais os interesse
políticos que os da população. Então,
hoje temos em torno de 45 mil policiais, cerca de 10 mil civis
e 35 mil militares. Aproximadamente 1 policial para cada 400
habitantes em todo o estado. Na zona sul há uma concentração,
aqui na Baixada há relaxamentos. É uma questão
de orientação política.
É como o delegado Hélio Luz afirma:
é a “policia da elite”...
Ela é da elite, para a elite, na distribuição
e não ação. Na abordagem, dependendo
da área da cidade, da cor da pele, da qualidade da
roupa, o tratamento será diferenciado.
Devido às evidências de envolvimento
de policiais em chacinas e grupos de extermínio na
Baixada, a população começou a ter um
sentimento dúbio: a presença da polícia
é tida como uma necessidade, mas também com
preocupação. Como mudar o olhar do cidadão
sobre a sua polícia e vice-versa?
Conheço áreas as quais sofrem freqüentes
incursões com brutalidade por parte da polícia.
E quando estas áreas se pronunciam, fica muito evidente
que a população detesta o crime, já que
é óbvio e natural, que todos preferem uma situação
harmoniosa e tranqüila. Sendo assim, quando a polícia
atua de forma conseqüente e respeitosa, seus profissionais
são muito respeitados e estimados, a população
se sente muito valorizada e grata por isso, por mais que seja
um dever do estado.
Conseqüentemente, a população gosta do
policial e sente-se protegida nos termos legais, lembram que
são cidadãos. Colaboram, criam parceira mesmo;
a boa polícia é querida e valorizada
Para os jovens da Baixada, em uma situação
diferenciada da Capital, o tráfico ainda não
se constituiu quanto “política de trabalho”
– predomina assim, o ócio que conduz a outras
situações de risco. A secretaria planeja desenvolver
ações com foco nas demandas específicas
da juventude na região?
O problema da violência ou da participação
na violência enquanto perpetrador envolve todas as áreas
da vida em sociedade – economia, acesso à renda
e ao emprego, à educação, escolaridade,
evasão, capacidade humana da escola de atrair e manter,
questões familiares e psicológicas, dependência
química...
Quais as perspectivas de uma política sistêmica
em Nova Iguaçu?
O que temos hoje para ancorar uma política sistêmica
é o Bairro-Escola – a qual cria consistência
e universaliza-se este ano. Buscando os programas sociais,
os quais hoje são cestas variadas no atendimento diverso.
Sistematizar, organizar e articular tudo isso, e oferecer
aos jovens mais vulneráveis oportunidades de valorização
e de reconhecimento. O retorno à escola e o acesso
futuro ao emprego é fundamental, mas se esse jovem
não se reconhecer como ser humano, dotado de valores,
não se sentir amado, querido, respeitado, não
podendo amar-se, a partir dessa experiência de afeto
e reconhecimento, não se consegue trazê-lo para
a sociabilidade construtiva.
Então, estaríamos falando de políticas
de valorização que objetivam, entre outras coisas,
fazer o jovem amar-se?
Se eu não tivesse a minha idade e os livros que escrevi
eu nunca ousaria falar disso. Acho que hoje ninguém
diria: o Luiz Eduardo é um idiota completo. Pelo menos,
idiota completo eu não sou! Mas, poderiam dizer: o
Luiz Eduardo é um romântico que está ficando
velho e se perdeu na ingenuidade e romantismo. Mas, eu acho
que tenho algum crédito para ousar e posso dizer que
o amor e o afeto jogam um papel fundamental, mesmo correndo
o risco de ser mal interpretado como ingênuo. Então
como é que você oferece a este jovem que está
em uma crise de falta de amor, sentindo-se rejeitado pelos
seus semelhantes? - O que se pode oferecer a ele é
seu alimento fundamental, o amor para que lutem pelos outros
todos. É muito difícil, pois só a família,
as relações muito pessoais podem proporcionar
isso.
Como o Poder Público Municipal pode oferecer
condições que facilitem esta experiência
de reconhecimento e valorização?
Através da cultura, a grande experiência que
faculta isso. É na criação, na expressão,
tornando o indivíduo capaz de encontrar o olhar do
outro atento, reverente, o mérito, o seu valor reconhecido.
Então, a proposta é chegar ao fundo desta sociedade
perdida no ócio, neste vazio que vocês diziam,
com a oportunidade da criação, da valorização,
isto não é tão difícil. Não
custa tão caro. Não exige ourivesarias, exige
delicadeza.
Segundo alguns estudos, Nova Iguaçu lidera
o ranking de violência contra a mulher. Como a secretaria
pretende atuar sobre esta questão?
A construção da masculinidade é a construção
da violência e vice-versa. Como se explica que 95% dos
crimes letais do mundo são executados por homens? As
mulheres também cometem crimes, mas 95%! Esta questão
é chave. Não tem como nós tratarmos a
violência sem tratarmos a desestruturação
da masculinidade como agressividade. Este é um ponto
que vamos focar com a garotada em nossos programas.
Como foi seu convite para atuar na Baixada?
O Prefeito de Nova Iguaçu me convidou para contribuir
trazendo alguns programas que pudessem atingir jovens que
não são alvos do Bairro-Escola, porque estão
além do alcance do Ensino Fundamental. E são
os mais vulneráveis à violência.
Diferente da capital, onde o problema da violência
está muito ligado ao tráfico de drogas e tornou-se
difusa, a Baixada Fluminense sofre uma violência que
parece legitimar a política de zona de exclusão
e o preconceito regional. Quais são os planos da secretaria
para enfrentar este problema?
Na verdade não há aí um problema, há
uma constelação de problemas que vocês
articularam muito bem. Essa é uma tarefa multidimensional,
intersetorial. E, portanto, uma tarefa posta como um desafio
para o poder público, não só para prefeitura
de Nova Iguaçu, mas para os poderes: Estadual e até
da União. Alguns aspectos são constitutivos
e estruturantes: as desigualdades as quais remetem para um
âmbito bem mais amplo, inscrevendo a Baixada num sistema
de desigualdades pelo qual ela paga um preço. Assim,
a realidade é o nosso tema nacional. Eu diria que o
que podemos fazer na área muito específica da
Secretaria de Valorização da Vida e Prevenção
da Violência é reduzir danos e salvar algumas
vidas e contribuir para a redução do genocídio,
em curso em todo o nosso país. O que nós pudermos
fazer nessa direção eu acho que será
já relevante.
O novo governador solicitou a Força Nacional
de Segurança com o objetivo frear a violência
do Estado. Você acredita que este movimento é
adequado? O Rio precisa de mais força policial?
Precisa de mais força policial, é um movimento
adequado, mas não contempla as necessidades. Até
porque a concepção de Força Nacional
foi formulada quando eu estava na Secretaria Nacional [de
Segurança]. Ela tinha uma outra característica.
Era para ser uma força de investigação
do crime organizado a partir das PRÓPRIAS polícias.
Seria um grupo de quinhentas ou seiscentas pessoas selecionadas
em todo Brasil. Isto porque nós não teríamos
tempo de formar outra polícia - dando uma resposta
rápida como a situação exige. Teríamos
que fazer esta seleção nacional contando com
policiais já experientes, maduros e testados. Contaríamos
com um grupo de investigação que trabalharia
uns três anos em Brasília com equipamento de
ponta. Com todos os instrumentos de proteção
a si, e às suas famílias, para que nós
enfrentássemos este problema da criminalidade.
Infelizmente a idéia da Força Nacional foi alterada
e nós temos uma “Guarda Nacional”. Virou
um efetivo de patrulhamento ostensivo, mas por mais que sejam
pessoas sérias e bem treinadas, não cumprem
exatamente a proposta inicial.
Você elaborou – junto com um grupo de
estudos – um plano nacional de segurança denominado
SUSP. Como ele funcionaria?
A transferência para os estados da autoridade do modelo
de polícia que se deseja ter, definiria em sua constituição
estadual que o melhor é ter 50 pequenas polícias
nos municípios, ou então 3 polícias em
regiões maiores, por exemplo. Todos se completam, unificadas,
com uma formação específica. A idéia
é discutir com a população para ver qual
modelo é melhor. Eu tenho certeza que a imensa maioria
vai aprovar mudanças drásticas.
O outro meio é normalização do Sistema
Único de Segurança Pública. Todas as
polícias teriam que respeitar princípios únicos
em áreas chaves: da formação, da informação,
gestão, perícia, controle externo e prevenção.
Não são camisas-de-força, são
exigências mínimas. De tal maneira, poderíamos
ter uma explosão de tipos de polícia: um estado
poderia ter, como nos Estados Unidos, polícias distritais;
mas todas elas deverão ter controle externo independente,
com poder de investigação, transparência,
uma gestão baseada em avaliação e monitoramento,
formação padronizada nacional – ainda
que com variações – com ciclo básico
comuns; perícia valorizada com independência;
articulação com trabalho preventivo valorizado.
E os fundos que houver, vão alimentar as instituições
que respeitem estas normas.
Porque esta discussão não apareceu em
outro momento histórico?
Porque nós demos murro em ponta de faca durante 20
anos, buscando formas nacionais alternativas. O Dr. Hélio
Bicudo defendia a unificação das polícias,
mas a reação que isto gerava era imensa, e em
alguns estados, esta proposta não passa de jeito nenhum,
pois não há viabilidade política hoje.
Então dar autonomia seria a melhor solução?
Sim, avança quem puder e quiser. Mas, infelizmente,
o Governo Federal desistiu, o que me provocou grande tristeza
e decepção. Já se tinha avançado
bastante e o recuo foi uma consideração política
menor - um pensamento do tipo: não vamos correr risco
de nos desgastarmos com isso [violência], vamos deixar
isto para os governadores. É muito lamentável.
Como funciona os Gabinetes de Gestão Integrada?
Hoje, nós temos no país um quadro de Políticas
de Segurança muito fragmentado e o Gabinete é
um braço operacional que começa na prática
a redesenhar o caos atual, convertendo-o no prenúncio
de um sistema integrado. É uma mesa de decisões
coletivas e compartilhadas. Sem hierarquia todas as instituições
se debruçam sobre às questões e tentam
negociar um consenso de prioridades e metas.
O Governador Sérgio Cabral reativou o Gabinete
de Gestão do Rio?
Parece-me que os governadores estão afinados com a
nossa filosofia do Sistema Único de Segurança,
pelos desdobramentos que temos visto. E eu quero levar ao
Governador a proposta de criação de um Gabinete
de Gestão Integrada Municipal em Nova Iguaçu,
como experiência piloto nacional, para articularmos
ações preventivas, junto aos trabalhos policiais,
como maneira de obtermos das autoridades policiais o compromisso
de certo tipo de postura aqui na Baixada.
Por
que não existe uma política mais humana de
segurança pública em nosso país?
As nossas instituições de segurança
seguem os mesmos moldes da época da ditadura. Por
conta de um casamento perverso entre direita e esquerda.
A direita estava satisfeita com as polícias e a esquerda,
por conta de um misto de ignorância, preconceito e
trauma, achava este um tema maldito pertencente à
direita. Era inclusive um tema de quem não tinha
profundidade, porque falar de polícia, de segurança,
seria falar de conseqüências. Então, nós
da esquerda somos “pessoas sérias e profundas
que pensam as grandes causas estruturais”. Assim,
a esquerda cruzou os braços e deixou o tema com a
direita e com os lobbys.
Nos últimos anos você lançou quatro
livros, fale um pouco do propósito como foram pensados?
O “Elite da Tropa” aconteceu porque me parecia
que as pessoas não têm dimensão real do
que significa a brutalidade policial; a não ser quem
sofre esta diretamente. Em algumas regiões de periferia,
para os mais pobres, principalmente para os negros, porque
é muito fácil quando a questão da violência
policial é tratada como mais um assunto qualquer. Então
o “Elite” é um esforço de realidade,
de trazer para perto. Porque por mais que eu dissesse que
este é um problema e mensurasse números, eu
não iria sensibilizar ninguém.
É uma forma de contar as estórias de
modo que possa sensibilizar?
A meta é dizer isso de maneira popular e mostrar que
a desigualdade se manifesta da forma mais brutal. Mostrar
estes números de institutos de pesquisas não
estavam sensibilizando ninguém. E são números
eloqüentes: em 2003, 1.195 mortes em ações
policiais no Rio; 2004, 984 mortes; em 2005, 1.087; 2006,
520 só no primeiro semestre. Então vamos ter
mais de mil de novo... 65% dos casos são sempre execução,
não são confrontos...
Autos de resistência?
Exato. E se compararmos com Minas, aonde há mais de
6 milhões de habitantes tiveram 72 mortes em 2005;
no Rio, 1.087; São Paulo, três vezes menos. Estados
Unidos têm 250 milhões de habitantes, policiais
muitas delas duras, se mata por ano, em média, 200
pessoas... O Rio tem uma das polícias mais letais do
mundo!
Bem, o “Cabeça de Porco” é a questão
da visibilidade, da impunidade, do reconhecimento e da valorização.
Esta dimensão intersubjetiva sempre negligenciada quando
falamos dos jovens envolvidos na violência. Tendemos
sempre a observar só aspecto material, também
importante, mas tentamos chamar atenção para
este outro lado mais pessoal.
O “Legalidade Libertária” é uma
reunião de estudos e propostas. E o “Segurança
tem Saída”, é dizer que apesar do “Cabeça”
e do “Elite”, dos problemas e das polícias,
tem solução. Senão eu não estaria
insistindo neste caminho. Claro que em longo prazo e com a
junção de muitos esforços.
Depois de denunciar a chamada “banda podre”
da polícia do Rio você se ausentou do Estado.
Mais tarde, por não concordar com os rumos de uma política,
que depois viria a público com episódios como
o do “Valdomiro” e de “mensalão”,
você se desligou da Secretaria Nacional de Segurança
Pública. Não te dá um sentimento de nadar
contra a maré?
Não, eu tenho certeza! Estou frequentemente nadando
contra a maré e sendo atropelado na contramão.
É verdade! Mas eu acho que a minha experiência
tem gerado algumas idéias, alguns valores e visões
os quais têm desdobramentos independentes e importantes.
Então você percebe que há um confronto
político e você é derrotado, mas o processo
continua. Daqui a pouco você começa a ver que
apesar da derrota política, ocorreram aspectos positivos
ali que perduram, e em longo prazo talvez haja uma vitória.
Para finalizar. Qual é a sua Causa?
Contribuir para reduzir as desigualdades e preconceitos. E
uma das manifestações mais graves da desigualdade
no Brasil se dá no acesso à justiça.
E a violência, sobretudo a violência letal, é
uma expressão perversa das nossas desigualdades e nossos
preconceitos. Então reduzir a violência de alguma
maneira é uma causa. Uma causa para articular a realização
de todas as outras.
Publicado
no jornal
ComCausa 20.
Leia outras
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Fotos:
Acervo ComCausa.
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