Entrevista:

Ras Bernardo

 

 

- ComCausa - Jornal 21> Por Adriano Dias

 

Ras é a figura do “Rasta Man”. Tranquilão, gente boa, e convicto no que acredita. Do seu jeito. Se nos distraíssemos a conversa se estenderia por todo um dia. Assim, em uma bela manhã de verão recebemos Ras para uma entrevista que já estava agendava há quase um ano.

 

Como surgiu o Cidade Negra?
Em 1984 nos vivíamos na Piam, em Belford Roxo. O Da Gama era estivador, eu era metalúrgico, Lazão era soldado do Exército e Bino era estudante. Ninguém tinha um pensamento voltado para nenhum vínculo de banda. Aí eu apresentei uma poesia ao Bino e ao Da Gama – eu não conhecia o Lazão – e eles ficaram sabendo de um festival estudantil de um movimento que acontecia nas igrejas católicas - que na época era uma das maiores difusores de cultura na região. Foi quando tudo começou, o Bino e o Da Gama me convidaram para formar o grupo para participar do evento. Disputamos um festival no Estrela [Clube de Belford Roxo]. Perdemos, fomos vaiados. Depois fomos participar de um festival na Igreja São Judas Tadeu [Belford Roxo], perdemos de novo. Teve também um festival no Heliópolis [Clube de Belford Roxo], também fomos vaiados. Aí pensamos o seguinte: festival não é com a gente, não vamos nos preocupar com troféus de festivais, vamos nos preocupar em nos preparar para gravar um disco. Começamos a mudar nossa cabeça, na verdade esse movimento já estava acontecendo individualmente na cabeça de cada um. Foi quando formamos a banda Lumiar, que é o nome de um ponto turístico na Serra, no Rio. E depois, para não ficar o nome de um local, criei um titulo para simbolizar tudo o que nós pensávamos: Luz, União, Música, Inspiração, Amor e Religião – LUMIAR. Ai a coisa surgiu com mais energia, com mais identidade, devido à militância minha, do Da Gama, do Bino. Depois veio o Lazão.
Já era o Cidade Negra?
Foi o princípio. Mas nós não tínhamos nada, instrumento nenhum. Fomos comprando o que dava. Com meu trabalho de metalúrgico comprei uma caixa de som, o Da Gama comprou um violão, a guitarra do Da Gama na verdade era um violão. A banda eram oito músicos, que acabaram reduzidos a quatro. As pessoas foram saindo, tinham suas vidas profissionais. Já eu me entreguei de vez, eu tinha 8 anos na metalurgia e pedi demissão para me dedicar totalmente. Da Gama saiu da estiva, Lazão do Exército, Bino terminou o colégio. Nos dedicamos de corpo e alma e acabou que a fé removeu montanhas, as dificuldades.
Isso foi quando?
Começo dos anos 80. Depois, já em 1986, nós já tínhamos galgado nome no Rio, em um movimento reggae chamado NEC (Núcleo Experimental de Cultura). E nós começamos a participar do movimento e a coisa foi incrementando, também por conta do público que vinha prestigiando a gente. Foi assim, até que veio um rapaz da Inglaterra, chamado André Miranda, que formou um programa chamado “Bate Macumba” junto com o Nelson Meireles (atual produtor do Cidade Negra). Através desta relação é que veio a conseqüência de passarmos o nome para Cidade Negra.
Você já participava de movimentos sociais na época?
Na época o movimento cultural [na Baixada] acontecia mais por entusiasmo das pessoas, não era uma coisa organizada. Não existiam esses movimentos sociais de incentivo à cultura na Baixada que tem hoje.
O foco era outro, os movimentos estavam se dedicando mais a questões como saneamento, saúde, moradia...
E a cultura ficava para segundo plano.
Como aconteceu o contrato com uma gravadora?
Nós tínhamos escrito na parede da nossa sala de ensaio todos os nomes de todas as gravadoras do Rio que procuraríamos. Engraçado que a CBF (hoje Sony Music) era a única que não estava na parede e foi a que nos contratou. E este contrato deu ênfase a um pensamento diferente na cabeça dos jovens da Baixada.
Uma banda que saiu da Baixada e estourou com Reggae a nível nacional.
Graças a Deus o pessoal percebeu que podia fazer igual. Isso aumentou as perspectivas de quem fazia música na Baixada.
Você gravou quantos discos com o Cidade Negra?
Dois discos: o “Lute para Viver”, que é considerado pela opinião pública como um dos melhores do Cidade Negra. E o “Negro no Poder”, que foi descriminado pelo título que tinha.
Então vocês foram fazer reggae como militância política?
É, mas a música reggae não fala só de política. Fala um pouco de tudo. Você vai à Jamaica é ouve reggae falando de amor, e até de temas discriminatórios. Que não era nosso caso. Nós optamos por, através da música, militar pelas questões raciais, sociais, politizadas. A ponto de sermos rejeitados pra caramba. A ponto de causar a minha saída do Cidade Negra. Eu sempre fui um militante em todos os sentidos. A injustiça me choca muito, não é só eu que sofro, mas toda uma sociedade.
Então você saiu do Cidade ...
Sai na hora em que o disco estava sendo gravado, devido a que minha proposta de mensagem não era aceita.
Tinha influência direta na produção do disco?
Da própria gravadora. Depois a mídia que não tocava. Só tocava “Fala Verdade” e “Mensagem”. Não tocavam, por exemplo, “Gafanhoto” que falava na corrupção na política. Então na realidade eles travam tudo isso. Parece que querem que as coisas fiquem como estão. E hoje, estão sofrendo esta conseqüência. Talvez se colocassem na mídia coisas como as que eu falava, que eu falo... Talvez as pessoas estivessem mais conscientes. Acho que só através da cultura, da música, pelo ouvido as pessoas se conscientizam. E quando a gente coloca toda a questão social, racial, na música, militando contra o sistema que está aí, as pessoas vão se ligando e as coisas vão para frente. Em outros países tem muitos grupos aparecendo pela sua mensagem militante.
Asian Dub Foundation, System of Down…
Se diferenciaram pela mensagem. As pessoas falam muito do que é popular. Mas a música que fala da questão social se torna popular a partir de que as rádios, os sistemas, colocam para as pessoas escutarem. A mídia costuma dizer que “isso” [musicas politizadas] a população não gosta. Mas acredito que as pessoas estão se voltando mais para as questões sociais, infelizmente por conta de muita coisa ruim que esta acontecendo. Eu tenho este pensamento. Sempre tive este pensamento.
Estão você aborda somente questões sociais em seus trabalhos?
Não, eu toco um pouco de tudo daquilo que eu sinto e vejo. Na verdade, eu tenho que ser real comigo. E sendo real comigo, eu vou ser com as pessoas. Mas eu tenho que tocar na questão social porque ela exige, eu gostaria simplesmente de só falar das flores ou falar só de amor, mas infelizmente o Brasil é um país novo, que vai caminhando, os políticos estão aprendendo, a galera que mata jovem está aprendendo com os políticos corruptos, mas tem gente boa absorvendo o melhor dos políticos decentes, eu acredito muito nisso. Eu tenho um ponto de vista neste ponto, eu falo isso com a galera jovem para ficar atenta, inclusive registrar o nome de todos os corruptos para que não se repita isso, eu sou a favor disso, cheguei até falar em lançar um site com todos os corruptos da área. Aí falaram: não faz isso não porque é perigoso, mas o que é perigoso? Acho que o maior perigo que tem é deixar esses caras aí, porque mártir é o que morre por uma causa, eu não quero morrer por causa nenhuma, eu quero estar vivo tocando na causa. Com causa!
O que fez após a saída do Cidade?
Fui dar continuidade à minha história de tocar na questão social. E às vezes as pessoas perguntam nas entrevistas: você não fala de amor não? Pôxa! Acho que é o que eu mais falo! – ai eles falam: mas você só toca na questão política! - Você quer ver um amor maior do que este que é um amor coletivo? Não é um amor pessoal meu com uma mulher, então este é o verdadeiro amor, o amor que toca em um todo. Todos felizes, não tem um amor melhor do que este: ver as crianças alimentadas, não ver ninguém na rua, parece uma utopia, pensar desta forma aqui no Brasil. Mas infelizmente a gente vê essas coisas, então não consigo engolir, até porque sofro, não só por mim, pelo fato de ser negro. Mas pelas pessoas que eu vejo, sofrendo. Mas graças a Deus, hoje está mais gostoso tocar na questão social, porque existem muitos movimentos que vêm alicerçando mais as idéias em que acredito. Eu estou muito feliz com isso.
O que você tem de projeto musical hoje?
Estou fazendo um trabalho com o Carrasco Martins, do Rio Grande do Sul, que é um empresário meu. Um militante também, militante político, idealista, guerreiro, pessoa por quem tenho grande admiração. Eu estou fazendo este projeto do tipo “The besto Off”. Estou com um projeto com o Bino, que é um novo disco, não com a linguagem do Cidade, vai ser um trabalho novo, inédito. Este ano, se Deus quiser, vai sair aí um novo trabalho solo meu, com uma nova cara. Vai ter uma música chamada “Ligados na Paz”. Fiz também um disco junto com o Digital Dubs. Um Sound System totalmente integrado à questão social, tem uma mesma linguagem, embora não há banda, são 3 Djs que fazem um trabalho maravilhoso, que é Roots, sendo que tem muito Dub. Sei que nem todo mundo está aderindo realmente a este tipo de música, mas no Rio tem um publico considerado muito bom, eu tenho participado e tenho visto. No Youtube mesmo, tem algumas gravações minhas com eles. E eu estou dando continuidade a um novo trabalho com Fernanda Costa, vai fazer um trabalho acústico comigo. É muita coisa, mas música é isso, ela é universal ele tem que fazer um pouco de tudo para poder tirar o melhor do néctar dali.
Você mora no bairro da Cerâmica [Nova Iguaçu] onde ocorreram a maioria das mortes da “Chacina da Baixada”, no dia 31 de março de 2005. O que você acha que leva a situações como esta?
O que leva a isso é a omissão dos políticos. A falta de uma política voltada para o social. Um dos motivos dessa chacina foi que teriam colocado um comandante mais correto, segundo informações que eu tenho. Aí os caras matam para forçar a transferência. Infelizmente foi mais um comandantezinho, que chegou agora, atrasado, aqui na Baixada Fluminense. Se todos os comandantes fossem mais corretos, linha dura, punindo realmente quem é corrupto dentro da polícia, talvez isso não acontecesse. Isso é omissão política. Há algum tempo vi uma entrevista com uma autoridade da área de segurança que propôs a idéia de cercar todos os morros para tirar as armas dos bandidos. Ignoraram o cara. E o que a gente vê é a policia entregando armas e drogas aos bandidos e depois voltando para assassiná-los. Isso é falta de um governo voltado mesmo para uma segurança para todo mundo. As pessoas falam muito da questão saúde, a saúde abrange a segurança também, porque as pessoas perdem a vida de bobeira devido à falta de ações sociais dos governos que poderiam ter investido muito mais nisso. Parece que a segurança ficou pior até do que na época dos militares. É lamentável, mas infelizmente eu tenho que falar isso. Eu sou militante há muito tempo, briguei muito contra o militarismo, contra a ditadura. Fiz parte daquele movimento que aconteceu na Candelária, na Cinelândia, na época do Tancredo. Depois o civil põe a mão no poder e acaba deixando pior.

Após a chacina os governos anunciaram que fariam um grande investimento em cidadania na região. Você como morador acha que aconteceu isso, e o que poderia ser feito para resgatar esta região?

Na Cerâmica eu não vi nada de concreto. Foi só festim, foi um monte de secretarias: de cultura, de educação. Mas nada de concreto. Estas secretarias só botam dinheiro no bolso de pessoas que não fazem nada, eu não sei o que e que acontece.

Como o poder público deveria então agir?
Acho que falta realmente mais ação dos governos da Baixada. As prefeituras não têm que fazer movimento só na época de eleição ou carnaval. Elas têm que estar todos os 12 meses, em comum acordo com os movimentos sociais, investir nestes movimentos para que não venha a acontecer outra chacina. Investir na molecada. Em educação. Que as pessoas confundem muito educação somente com colégio. Só que hoje em dia tem criança entrando com arma dentro do colégio, não sei que educação é essa. A educação tem que estar fora, tem que estar na rua, dentro da casa de cada aluno. Acho que a educação ela começa dentro da casa, na qualidade do programa de TV, na qualidade do programa de rádio, informando as pessoas, as crianças e os pais também. Acho que tem que chamar os pais para o colégio para estarem integrados nas mesmas coisas que os professores passam para os seus alunos. Porque os pais chegam em casa e às vezes não têm nem base para poder conversarem com seus filhos.
Como?
As crianças quando não têm o que pensar... tem uma música que eu canto, que é do Ivo Meireles: “No morro não tem play”. Se no morro não tem playground, não tem nem lugar para as crianças brincarem, o que vai sobrar? Eu morei em Santa Tereza e conheci um menino dali da comunidade. E qual o sonho dele? Ser marginal, líder de trafico de drogas. Ele falou, eu fiquei embasbacado quando eu ouvi aquilo, e eu vi realmente a falta de uma ação social, se tivesse alguém ali agindo para que as crianças voltassem suas mentes para a cultura ele não pensaria assim.
Eu mesmo vim de uma família pobre, morando na beira do rio em Belford Roxo. Da Gama, Bino, Lazão, foram totalmente marginalizados, e nós graças a Deus tivemos a mente voltada para a cultura, agora se já tivesse esse movimento cultural da Baixada naquela época, não vou dizer que estaria às mil maravilhas, mas também não estaria neste extremo. Eu acredito que só os movimentos sociais, só essas ações de cultura irão fazer com que no futuro nossos homens e mulheres tenham outra mentalidade. Nunca vi essas injeções, nunca vi, eu estou vendo simplesmente surgindo muito movimento, graças a Deus, acho que é a única alternativa que nós estamos tendo. Tem muito movimento fazendo coisas que o governo não vem fazendo. Eu fico pensando: tanta grana que rola aqui dentro de prefeitura, salários altos para os deputados e salários baixos para o proletariado... O país tem dinheiro, o problema é distribuir. E mesmo assim vêm pessoas de fora para poder financiar coisas aqui. Acho isso uma vergonha, eu me sinto envergonhado. Mas ao mesmo tempo muito orgulhoso de ser brasileiro, porque eu acredito pra caramba nessa gente, nos políticos bons, que eu conheço, eu vejo, não vou citar nomes, mas sei que estão aí.
Então você continua acreditando na política partidária?
Continuo, continuo votando, tem gente boa, outro dia um candidato foi condenado pela polícia porque ele falou que a polícia é corrupta e eles não admitiram isso, não gostaram, infelizmente é corrupta mesmo não tem como negar, está aí estampado na cara de todo mundo, todo mundo vê, infelizmente. E o exemplo está aí. A própria polícia sendo atacada pelos próprios bandidos que eles criaram. São coisas que eu tenho que tocar, agora não diria que eu sou contra a policia, sou a favor de uma polícia digna, de políticos dignos, eu saí [do Cidade Negra] justamente para dar continuidade à minha linguagem de tocar na questão social, na questão racial, em um todo, porque hoje em dia o racismo ele não é só negro, ele é social mesmo. Se o cara não tem grana ele está ferrado, seja ele preto, branco, amarelo, não importa a cor, claro que eu sei que também há uma diferença na abordagem do entre o negro e o branco.
Ah! Mas eu acho que o povo tem que prestar mais atenção em seus governantes e reivindicar. Ir na Câmara. Eu estava até fazendo a reivindicações para meu bairro. Vou freqüentar a Câmara para exigir e chamar a galera, os movimentos sociais, os caras que têm causa. Esses caras, que têm causa, têm que estar nas Câmaras brigando, fazendo o diferencial. Para a população ver realmente quem são os políticos, bons ou ruins, quem é que eles colocaram no poder votando. Tem que acabar com esse negócio secreto, tem que estar lá cara a cara, na hora de votar no aumento dele e tem que estar lá cara a cara quando ele estiver votando no aumento do proletariado.
Você acredita que a música muda as pessoas?
Se essa música fala realmente a verdade, eu acredito pra caramba, que vai levar o Brasil para uma transição maravilhosa. Eu acredito muito nisso, sou militante, eu sei que isso não vai agradar a todos, mas poxa! Eu quero é me agradar quando eu ver todos felizes. Você é um militante, você sabe o que é errado e o que é certo, por isso está aí na luta. Você tem uma causa e minha causa é a sua causa...

Era exatamente a próxima pergunta, sempre para finalizar a fazemos. Qual é sua causa?

A minha causa é a de muitos que talvez nem sabem qual é a causa deles. Então essa é minha causa: brigar pelos que não tem nem causa. Porque nem sabe, não tem a consciência do que é causa. Estas pessoas talvez estejam sofrendo por não terem uma causa. Então eu acho legal pra caramba esta coisa de se voltar para uma questão social, cultural, porque só assim nós vamos mudar. Não vamos mudar o mundo na hora, mas um pouquinho. Sabe, no trabalho de formiguinha a gente vai construindo um castelinho aqui, outro ali e vamos mudando e nossas rainhas vão levando as mesmas informações para outros cantos. E vai voando, tem que ter cuidado com os gaviões. Então, acho que é isso aí. As pessoas que têm uma causa têm que estar junto, têm que buscar, lutar e brigar. Eu sou um cara que eu gosto que as pessoas vejam e digam para mim o que é errado para eu que aprenda mais e mais. Não sou lá tão sábio assim, mas eu sou um buscador, um buscador da causa.

 

 

Publicado no jornal ComCausa 21.

Leia outras entrevistas em www.comcausa.org.br/entrevistas.

_____________________________________________________________________________________^

Página desenvolvida pela ComCausa.

^