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Por Adriano Dias
Ras
é a figura do “Rasta Man”. Tranquilão,
gente boa, e convicto no que acredita. Do seu jeito. Se nos distraíssemos
a conversa se estenderia por todo um dia. Assim, em uma bela manhã
de verão recebemos Ras para uma entrevista que já
estava agendava há quase um ano.
Como surgiu o Cidade Negra?
Em 1984 nos vivíamos na Piam, em Belford Roxo. O Da Gama
era estivador, eu era metalúrgico, Lazão era soldado
do Exército e Bino era estudante. Ninguém tinha
um pensamento voltado para nenhum vínculo de banda. Aí
eu apresentei uma poesia ao Bino e ao Da Gama – eu não
conhecia o Lazão – e eles ficaram sabendo de um festival
estudantil de um movimento que acontecia nas igrejas católicas
- que na época era uma das maiores difusores de cultura
na região. Foi quando tudo começou, o Bino e o Da
Gama me convidaram para formar o grupo para participar do evento.
Disputamos um festival no Estrela [Clube de Belford Roxo]. Perdemos,
fomos vaiados. Depois fomos participar de um festival na Igreja
São Judas Tadeu [Belford Roxo], perdemos de novo. Teve
também um festival no Heliópolis [Clube de Belford
Roxo], também fomos vaiados. Aí pensamos o seguinte:
festival não é com a gente, não vamos nos
preocupar com troféus de festivais, vamos nos preocupar
em nos preparar para gravar um disco. Começamos a mudar
nossa cabeça, na verdade esse movimento já estava
acontecendo individualmente na cabeça de cada um. Foi quando
formamos a banda Lumiar, que é o nome de um ponto turístico
na Serra, no Rio. E depois, para não ficar o nome de um
local, criei um titulo para simbolizar tudo o que nós pensávamos:
Luz, União, Música, Inspiração, Amor
e Religião – LUMIAR. Ai a coisa surgiu com mais energia,
com mais identidade, devido à militância minha, do
Da Gama, do Bino. Depois veio o Lazão.
Já era o Cidade Negra?
Foi o princípio. Mas nós não tínhamos
nada, instrumento nenhum. Fomos comprando o que dava. Com meu
trabalho de metalúrgico comprei uma caixa de som, o Da
Gama comprou um violão, a guitarra do Da Gama na verdade
era um violão. A banda eram oito músicos, que acabaram
reduzidos a quatro. As pessoas foram saindo, tinham suas vidas
profissionais. Já eu me entreguei de vez, eu tinha 8 anos
na metalurgia e pedi demissão para me dedicar totalmente.
Da Gama saiu da estiva, Lazão do Exército, Bino
terminou o colégio. Nos dedicamos de corpo e alma e acabou
que a fé removeu montanhas, as dificuldades.
Isso foi quando?
Começo dos anos 80. Depois, já em 1986, nós
já tínhamos galgado nome no Rio, em um movimento
reggae chamado NEC (Núcleo Experimental de Cultura). E
nós começamos a participar do movimento e a coisa
foi incrementando, também por conta do público que
vinha prestigiando a gente. Foi assim, até que veio um
rapaz da Inglaterra, chamado André Miranda, que formou
um programa chamado “Bate Macumba” junto com o Nelson
Meireles (atual produtor do Cidade Negra). Através desta
relação é que veio a conseqüência
de passarmos o nome para Cidade Negra.
Você já participava de movimentos sociais
na época?
Na época o movimento cultural [na Baixada] acontecia mais
por entusiasmo das pessoas, não era uma coisa organizada.
Não existiam esses movimentos sociais de incentivo à
cultura na Baixada que tem hoje.
O foco era outro, os movimentos estavam se dedicando mais
a questões como saneamento, saúde, moradia...
E a cultura ficava para segundo plano.
Como aconteceu o contrato com uma gravadora?
Nós tínhamos escrito na parede da nossa sala de
ensaio todos os nomes de todas as gravadoras do Rio que procuraríamos.
Engraçado que a CBF (hoje Sony Music) era a única
que não estava na parede e foi a que nos contratou. E este
contrato deu ênfase a um pensamento diferente na cabeça
dos jovens da Baixada.
Uma banda que saiu da Baixada e estourou com Reggae a
nível nacional.
Graças a Deus o pessoal percebeu que podia fazer igual.
Isso aumentou as perspectivas de quem fazia música na Baixada.
Você gravou quantos discos com o Cidade Negra?
Dois discos: o “Lute para Viver”, que é considerado
pela opinião pública como um dos melhores do Cidade
Negra. E o “Negro no Poder”, que foi descriminado
pelo título que tinha.
Então vocês foram fazer reggae como militância
política?
É, mas a música reggae não fala só
de política. Fala um pouco de tudo. Você vai à
Jamaica é ouve reggae falando de amor, e até de
temas discriminatórios. Que não era nosso caso.
Nós optamos por, através da música, militar
pelas questões raciais, sociais, politizadas. A ponto de
sermos rejeitados pra caramba. A ponto de causar a minha saída
do Cidade Negra. Eu sempre fui um militante em todos os sentidos.
A injustiça me choca muito, não é só
eu que sofro, mas toda uma sociedade.
Então você saiu do Cidade ...
Sai na hora em que o disco estava sendo gravado, devido a que
minha proposta de mensagem não era aceita.
Tinha influência direta na produção
do disco?
Da própria gravadora. Depois a mídia que não
tocava. Só tocava “Fala Verdade” e “Mensagem”.
Não tocavam, por exemplo, “Gafanhoto” que falava
na corrupção na política. Então na
realidade eles travam tudo isso. Parece que querem que as coisas
fiquem como estão. E hoje, estão sofrendo esta conseqüência.
Talvez se colocassem na mídia coisas como as que eu falava,
que eu falo... Talvez as pessoas estivessem mais conscientes.
Acho que só através da cultura, da música,
pelo ouvido as pessoas se conscientizam. E quando a gente coloca
toda a questão social, racial, na música, militando
contra o sistema que está aí, as pessoas vão
se ligando e as coisas vão para frente. Em outros países
tem muitos grupos aparecendo pela sua mensagem militante.
Asian Dub Foundation, System of Down…
Se diferenciaram pela mensagem. As pessoas falam muito do que
é popular. Mas a música que fala da questão
social se torna popular a partir de que as rádios, os sistemas,
colocam para as pessoas escutarem. A mídia costuma dizer
que “isso” [musicas politizadas] a população
não gosta. Mas acredito que as pessoas estão se
voltando mais para as questões sociais, infelizmente por
conta de muita coisa ruim que esta acontecendo. Eu tenho este
pensamento. Sempre tive este pensamento.
Estão você aborda somente questões
sociais em seus trabalhos?
Não, eu toco um pouco de tudo daquilo que eu sinto e vejo.
Na verdade, eu tenho que ser real comigo. E sendo real comigo,
eu vou ser com as pessoas. Mas eu tenho que tocar na questão
social porque ela exige, eu gostaria simplesmente de só
falar das flores ou falar só de amor, mas infelizmente
o Brasil é um país novo, que vai caminhando, os
políticos estão aprendendo, a galera que mata jovem
está aprendendo com os políticos corruptos, mas
tem gente boa absorvendo o melhor dos políticos decentes,
eu acredito muito nisso. Eu tenho um ponto de vista neste ponto,
eu falo isso com a galera jovem para ficar atenta, inclusive registrar
o nome de todos os corruptos para que não se repita isso,
eu sou a favor disso, cheguei até falar em lançar
um site com todos os corruptos da área. Aí falaram:
não faz isso não porque é perigoso, mas o
que é perigoso? Acho que o maior perigo que tem é
deixar esses caras aí, porque mártir é o
que morre por uma causa, eu não quero morrer por causa
nenhuma, eu quero estar vivo tocando na causa. Com causa!
O que fez após a saída do Cidade?
Fui dar continuidade à minha história de tocar na
questão social. E às vezes as pessoas perguntam
nas entrevistas: você não fala de amor não?
Pôxa! Acho que é o que eu mais falo! – ai eles
falam: mas você só toca na questão política!
- Você quer ver um amor maior do que este que é um
amor coletivo? Não é um amor pessoal meu com uma
mulher, então este é o verdadeiro amor, o amor que
toca em um todo. Todos felizes, não tem um amor melhor
do que este: ver as crianças alimentadas, não ver
ninguém na rua, parece uma utopia, pensar desta forma aqui
no Brasil. Mas infelizmente a gente vê essas coisas, então
não consigo engolir, até porque sofro, não
só por mim, pelo fato de ser negro. Mas pelas pessoas que
eu vejo, sofrendo. Mas graças a Deus, hoje está
mais gostoso tocar na questão social, porque existem muitos
movimentos que vêm alicerçando mais as idéias
em que acredito. Eu estou muito feliz com isso.
O que você tem de projeto musical hoje?
Estou fazendo um trabalho com o Carrasco Martins, do Rio Grande
do Sul, que é um empresário meu. Um militante também,
militante político, idealista, guerreiro, pessoa por quem
tenho grande admiração. Eu estou fazendo este projeto
do tipo “The besto Off”. Estou com um projeto com
o Bino, que é um novo disco, não com a linguagem
do Cidade, vai ser um trabalho novo, inédito. Este ano,
se Deus quiser, vai sair aí um novo trabalho solo meu,
com uma nova cara. Vai ter uma música chamada “Ligados
na Paz”. Fiz também um disco junto com o Digital
Dubs. Um Sound System totalmente integrado à questão
social, tem uma mesma linguagem, embora não há banda,
são 3 Djs que fazem um trabalho maravilhoso, que é
Roots, sendo que tem muito Dub. Sei que nem todo mundo está
aderindo realmente a este tipo de música, mas no Rio tem
um publico considerado muito bom, eu tenho participado e tenho
visto. No Youtube mesmo, tem algumas gravações minhas
com eles. E eu estou dando continuidade a um novo trabalho com
Fernanda Costa, vai fazer um trabalho acústico comigo.
É muita coisa, mas música é isso, ela é
universal ele tem que fazer um pouco de tudo para poder tirar
o melhor do néctar dali.
Você mora no bairro da Cerâmica [Nova Iguaçu]
onde ocorreram a maioria das mortes da “Chacina da Baixada”,
no dia 31 de março de 2005. O que você acha que leva
a situações como esta?
O que leva a isso é a omissão dos políticos.
A falta de uma política voltada para o social. Um dos motivos
dessa chacina foi que teriam colocado um comandante mais correto,
segundo informações que eu tenho. Aí os caras
matam para forçar a transferência. Infelizmente foi
mais um comandantezinho, que chegou agora, atrasado, aqui na Baixada
Fluminense. Se todos os comandantes fossem mais corretos, linha
dura, punindo realmente quem é corrupto dentro da polícia,
talvez isso não acontecesse. Isso é omissão
política. Há algum tempo vi uma entrevista com uma
autoridade da área de segurança que propôs
a idéia de cercar todos os morros para tirar as armas dos
bandidos. Ignoraram o cara. E o que a gente vê é
a policia entregando armas e drogas aos bandidos e depois voltando
para assassiná-los. Isso é falta de um governo voltado
mesmo para uma segurança para todo mundo. As pessoas falam
muito da questão saúde, a saúde abrange a
segurança também, porque as pessoas perdem a vida
de bobeira devido à falta de ações sociais
dos governos que poderiam ter investido muito mais nisso. Parece
que a segurança ficou pior até do que na época
dos militares. É lamentável, mas infelizmente eu
tenho que falar isso. Eu sou militante há muito tempo,
briguei muito contra o militarismo, contra a ditadura. Fiz parte
daquele movimento que aconteceu na Candelária, na Cinelândia,
na época do Tancredo. Depois o civil põe a mão
no poder e acaba deixando pior.
Após a chacina os governos anunciaram que
fariam um grande investimento em cidadania na região.
Você como morador acha que aconteceu isso, e o que
poderia ser feito para resgatar esta região?
Na Cerâmica eu não vi nada de concreto. Foi
só festim, foi um monte de secretarias: de cultura,
de educação. Mas nada de concreto. Estas secretarias
só botam dinheiro no bolso de pessoas que não
fazem nada, eu não sei o que e que acontece.
Como o poder público deveria então agir?
Acho que falta realmente mais ação dos governos
da Baixada. As prefeituras não têm que fazer movimento
só na época de eleição ou carnaval.
Elas têm que estar todos os 12 meses, em comum acordo com
os movimentos sociais, investir nestes movimentos para que não
venha a acontecer outra chacina. Investir na molecada. Em educação.
Que as pessoas confundem muito educação somente
com colégio. Só que hoje em dia tem criança
entrando com arma dentro do colégio, não sei que
educação é essa. A educação
tem que estar fora, tem que estar na rua, dentro da casa de cada
aluno. Acho que a educação ela começa dentro
da casa, na qualidade do programa de TV, na qualidade do programa
de rádio, informando as pessoas, as crianças e os
pais também. Acho que tem que chamar os pais para o colégio
para estarem integrados nas mesmas coisas que os professores passam
para os seus alunos. Porque os pais chegam em casa e às
vezes não têm nem base para poder conversarem com
seus filhos.
Como?
As crianças quando não têm o que pensar...
tem uma música que eu canto, que é do Ivo Meireles:
“No morro não tem play”. Se no morro não
tem playground, não tem nem lugar para as crianças
brincarem, o que vai sobrar? Eu morei em Santa Tereza e conheci
um menino dali da comunidade. E qual o sonho dele? Ser marginal,
líder de trafico de drogas. Ele falou, eu fiquei embasbacado
quando eu ouvi aquilo, e eu vi realmente a falta de uma ação
social, se tivesse alguém ali agindo para que as crianças
voltassem suas mentes para a cultura ele não pensaria assim.
Eu mesmo vim de uma família pobre, morando na beira do
rio em Belford Roxo. Da Gama, Bino, Lazão, foram totalmente
marginalizados, e nós graças a Deus tivemos a mente
voltada para a cultura, agora se já tivesse esse movimento
cultural da Baixada naquela época, não vou dizer
que estaria às mil maravilhas, mas também não
estaria neste extremo. Eu acredito que só os movimentos
sociais, só essas ações de cultura irão
fazer com que no futuro nossos homens e mulheres tenham outra
mentalidade. Nunca vi essas injeções, nunca vi,
eu estou vendo simplesmente surgindo muito movimento, graças
a Deus, acho que é a única alternativa que nós
estamos tendo. Tem muito movimento fazendo coisas que o governo
não vem fazendo. Eu fico pensando: tanta grana que rola
aqui dentro de prefeitura, salários altos para os deputados
e salários baixos para o proletariado... O país
tem dinheiro, o problema é distribuir. E mesmo assim vêm
pessoas de fora para poder financiar coisas aqui. Acho isso uma
vergonha, eu me sinto envergonhado. Mas ao mesmo tempo muito orgulhoso
de ser brasileiro, porque eu acredito pra caramba nessa gente,
nos políticos bons, que eu conheço, eu vejo, não
vou citar nomes, mas sei que estão aí.
Então você continua acreditando na política
partidária?
Continuo, continuo votando, tem gente boa, outro dia um candidato
foi condenado pela polícia porque ele falou que a polícia
é corrupta e eles não admitiram isso, não
gostaram, infelizmente é corrupta mesmo não tem
como negar, está aí estampado na cara de todo mundo,
todo mundo vê, infelizmente. E o exemplo está aí.
A própria polícia sendo atacada pelos próprios
bandidos que eles criaram. São coisas que eu tenho que
tocar, agora não diria que eu sou contra a policia, sou
a favor de uma polícia digna, de políticos dignos,
eu saí [do Cidade Negra] justamente para dar continuidade
à minha linguagem de tocar na questão social, na
questão racial, em um todo, porque hoje em dia o racismo
ele não é só negro, ele é social mesmo.
Se o cara não tem grana ele está ferrado, seja ele
preto, branco, amarelo, não importa a cor, claro que eu
sei que também há uma diferença na abordagem
do entre o negro e o branco.
Ah! Mas eu acho que o povo tem que prestar mais atenção
em seus governantes e reivindicar. Ir na Câmara. Eu estava
até fazendo a reivindicações para meu bairro.
Vou freqüentar a Câmara para exigir e chamar a galera,
os movimentos sociais, os caras que têm causa. Esses caras,
que têm causa, têm que estar nas Câmaras brigando,
fazendo o diferencial. Para a população ver realmente
quem são os políticos, bons ou ruins, quem é
que eles colocaram no poder votando. Tem que acabar com esse negócio
secreto, tem que estar lá cara a cara, na hora de votar
no aumento dele e tem que estar lá cara a cara quando ele
estiver votando no aumento do proletariado.
Você acredita que a música muda as pessoas?
Se essa música fala realmente a verdade, eu acredito pra
caramba, que vai levar o Brasil para uma transição
maravilhosa. Eu acredito muito nisso, sou militante, eu sei que
isso não vai agradar a todos, mas poxa! Eu quero é
me agradar quando eu ver todos felizes. Você é um
militante, você sabe o que é errado e o que é
certo, por isso está aí na luta. Você tem
uma causa e minha causa é a sua causa...
Era exatamente a próxima pergunta, sempre para
finalizar a fazemos. Qual é sua causa?
A minha causa é a de muitos que talvez nem sabem qual
é a causa deles. Então essa é minha causa:
brigar pelos que não tem nem causa. Porque nem sabe,
não tem a consciência do que é causa.
Estas pessoas talvez estejam sofrendo por não terem
uma causa. Então eu acho legal pra caramba esta coisa
de se voltar para uma questão social, cultural, porque
só assim nós vamos mudar. Não vamos mudar
o mundo na hora, mas um pouquinho. Sabe, no trabalho de formiguinha
a gente vai construindo um castelinho aqui, outro ali e vamos
mudando e nossas rainhas vão levando as mesmas informações
para outros cantos. E vai voando, tem que ter cuidado com
os gaviões. Então, acho que é isso aí.
As pessoas que têm uma causa têm que estar junto,
têm que buscar, lutar e brigar. Eu sou um cara que eu
gosto que as pessoas vejam e digam para mim o que é
errado para eu que aprenda mais e mais. Não sou lá
tão sábio assim, mas eu sou um buscador, um
buscador da causa.
Publicado
no jornal
ComCausa 21.
Leia outras
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