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Entrevista:
Tico
Santa Cruz
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Por Giordana Moreira
Em
meio ao caos que se encontra a sociedade brasileira, em que
a violência e os escândalos políticos tomam
conta do cotidiano da população provocando manifestações
e posicionamentos de coordenadores, personalidades e líderes
de movimentos pela Paz e a justiça social observamos
a presença de um jovem roqueiro barbudo.
Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas - grupo que já
vendeu mais de 250 mil cópias de seus trabalhos, um número
considerável para o mercado brasileiro, e já abriu
shows de bandas internacionais como Red Hot Chilli Peppers -
dedica seu tempo à música e aos protestos em razão
de uma dura realidade da qual a própria banda foi vitimada
com a morte de seu guitarrista Rodrigo Netto.
Envolvido em uma série de protestos e ações,
Tico espera pressionar o poder público e despertar na
sociedade o sentimento de revolta para as diversas formas de
desrespeito e impunidade. Esta inquietude diante da realidade
levou o roqueiro à ingressar no curso de Ciências
Sociais na UFRJ.
Tico segue na busca dos espaços que a grande mídia
lhe reserva e onde mais couber sua voz, como no Projeto Caravana
- em que a ComCausa também contribui - que leva música
aos presídios desde janeiro de 2007, e no grupo Voluntários
da Pátria.
Batemos um papo com Tico para saber mais de suas idéias
e ideais.
Além
de seu sucesso como vocalista do Detonautas a gente te vê
ativo em ações de questionamento do caos que
vive a sociedade. Antes do sucesso como músico, que
pensamento você tinha com relação a isso?
Na época de escola meu perfil era naturalmente associado
à rebeldia, nas aulas de História e Geografia
eu perguntava algumas coisas que geralmente não estavam
no currículo. Nunca participei de grêmios, nada
do tipo, ao contrário, eu era a última pessoa
que eles apostavam que pudesse ser alguma liderança
dentro da escola, mas de alguma forma dentro da sala de aula
eu sempre gostava de debater. No 2º grau eu comecei a
colar uns cartazes, principalmente com relação
à igreja - que era uma coisa que me incomodava -, a
relação entre a inquisição e o
conhecimento, o nazismo e a omissão da igreja na época
da 2º Guerra, isso foi refletindo naturalmente do decorrer
do meu amadurecimento. O Detonautas foi um meio que eu encontrei
de expressar através da música estes questionamentos,
embora as pessoas não prestassem atenção
por que talvez o Detonautas para a mídia apareceu de
uma forma um pouco mais superficial, mas desde o primeiro
discos já existem músicas com este teor, como
“Ladrão de gravata” do disco de 2001, “
O bem e o mal” que foi uma música que eu fiz
dia 11 de setembro. No segundo disco tinha uma música
que se chamava “O mercador das almas” que também
fala de uma forma mais metafórica sobre pessoas que
não tem nenhum escrúpulo em explorar os outros.
E as ações em paralelo?
Começaram de um encontro no Letras e Expressões
(livraria no bairro do Leblon), Universo da Leitura, e lá
conheci outras pessoas e montei uma outra célula chamada
Voluntários da Pátria que vai se estendendo
por vários meios, tanto pelos protestos nas ruas ou
pelos trabalhos nas faculdades, com debate, música,
poesias e até por ações, como um documentário
que estamos filmando sobre os protestos as passeatas. Estamos
agregando cada vez mais pessoas dispostas para trabalhar em
prol de alguma coisa que possa fazer a sociedade acordar,
não neste sentido de mudança imediata, mas tentando
agregar pessoas para despertar este sentimento. Daí
pode ser que alguma coisa mude no futuro, quando todo mundo,
ou boa parte, estiver disposta para enxergar o que esta acontecendo
de fato. Por enquanto a gente e só um sinal de alerta,
mostrando que não vamos compactuar com que está
acontecendo.
O que você acha dos movimentos tradicionais
que hoje tem um certo distanciamento da juventude?
De certa forma se distanciaram da juventude pela própria
forma da juventude pensar, que me parece muito distante de
qualquer tipo de preocupação social e política.
A juventude tem estado voltada para interesses próprios,
fazer vestibular, arranjar um emprego, não tem uma
coisa de estudar para modificar o meio em que vive. Eu acho
que isso faz com que esta desigualdade se torne mais evidente.
Mas, acho que é o fruto de uma sociedade que não
se preocupa com os jovens, como vivem, seus acessos a cultura,
ao conhecimento, ao respeito. Então, estamos vendo
a sociedade pagar o preço disso, desta negligência.
(Uma jovem que passava faz uma pergunta) –
você acredita nos movimentos? Eu estava naquele protesto
no centro da cidade e queria saber, no final das contas,
se você acha que tem alguma solução?
Eu não busco solução
imediata, senão vou me frustrar, mas dez medidas
que estavam travadas no Congresso há um bom tempo
sobre segurança pública foram votadas, então
isso é uma forma de pressionar. Agora, trinta pessoas
pressionando é diferente de cem mil pressionando...
A mídia passou a dar mais atenção a
isso e a divulgar. Isso faz com que as pessoas vejam outras
se manifestando e sintam o desejo de se manifestar. Acho
que é uma corrente! O objetivo é esse mesmo:
que cada vez mais pessoas vejam que está funcionando
e passem a pressionar o poder público, senão
irão continuar roubando e agindo impunemente e a
sociedade vai continuar apática e em coma. Percebo
uma esquizofrenia na sociedade brasileira que não
consegue associar a corrupção, o desvio de
verbas e o não investimento nas questões básicas
do cidadão ao que está acontecendo.
E o rock hoje contribui com essa luta?
Não sei se existe esta preocupação da
vertente rock and roll necessariamente voltada para conscientização.
Existem muitas bandas, no underground, batalhando por um espaço
um pouco mais digno, sem esta dificuldade de tocar no rádio,
de ter um espaço para tocar com qualidade ou ter que
pagar para tocar. No Rio ainda falta muito, em São
Paulo existem mais bandas voltadas para o mercado independente
que conseguem tocar e são respeitadas. Agora, no Mainstrean
existem bandas como o Rappa, Nação Zumbi, que
mantém vivo esse tipo de assunto. Acho que existem
também outras formas de atingir a juventude, como da
forma que o Detonautas utiliza, de pescar por um assunto e
oferecer outro depois como um complemento. Ele escuta uma
música de amor do Detonautas e entra no site para se
deparar com questionamentos políticos e sociais. Cada
um usa as armas que tem. Raul Seixas disse uma coisa que eu
uso muito como lema: aprenda a usar as armas do inimigo.
Muitas bandas do circuito comercial hoje adotaram
o amor como tema, você fala de um amor pleno, diferente
de um amor romântico?...
Mais o amor é revolucionário, as pessoas tratam
o amor na música de uma forma um pouco vulgar como
se fosse uma coisa que não tivesse o mesmo valor do
que uma crítica social, mas acho que o amor acima de
tudo agrega as pessoas, em torno de uma coisa positiva, e
dentro disso você pode agregar outros elementos. Eu
trato também do amor homem e mulher, mas o amor que
a gente prega é um amor que é a base da sociedade
cristã, embora eu não tenha nenhuma religião,
mas acho o princípio do cristianismo muito bonito -
Ame ao próximo como a ti mesmo. As pessoas pregam adesivo
no carro, mas não praticam, e quando você fala
de amor não necessariamente você fala do amor
da novela, você pode falar de amor ao próximo.
O último clipe do Detonautas é uma campanha,
Abraço grátis, pois é tão difícil
vermos uma pessoa abraçar a outra e tão fácil
de ver dando um soco na cara de outra...
Você acredita que pressionar o Poder Público
é o caminho?
É o único caminho, não existe outro.
Os jovens hoje lidam com a política como se ela não
interferisse na vida deles, e ela está em tudo. É
a mesma coisa que ir ao cinema e ficar conversando durante
o filme, você está dentro do cinema, mas não
tá sabendo da história que está acontecendo
ali - como ir votar e está pouco ligando pro seu voto...
é o que diz respeito ao que vai acontecer na sua vida,
da sua família, da sua comunidade...
Você uma pessoa pública que está
participando ativamente dos movimentos, qual e a reação
das pessoas com relação a o seu ativismo?
Existe uma responsabilidade muito grande nessa história.
Procuro sempre estar lendo a respeito, coisas que sempre me
chamaram atenção até porque fiz Ciências
Sociais na UFRJ, agora estou querendo me formar, e eu gosto,
não faço para aparecer, eu estou à vontade
nesta posição, dizer coisas que muita gente
tem vontade de dizer e não tem espaço. Eu leio
o que as pessoas escrevem, converso com as pessoas e só
coloco a minha voz nisso, alguns pensamentos são pensamentos
de muita gente que eu só estou amplificando. Então,
é uma maneira sadia de usar o veículo que eu
tenho para poder refletir as idéias de muitas pessoas.
Está no momento de mostrar quem faz isso para outras
pessoas quererem ajudar. Eu sou a favor que a gente use todos
os espaços desde o programa mais tosco até o
mais conceitual em prol de uma coisa boa para a sociedade
e não só para chegar lá e dizer que quero
vender minha música, meu disco e f(...)-se...!
Qual é a sua causa?
Minha causa é mostrar que a violência está
totalmente ligada ao desvio de verbas, a corrupção,
a impunidade, a imunidade parlamentar, ao voto secreto no
Congresso, a tudo que diz respeito à política
que passa desapercebido no cotidiano do brasileiro, mas
que é a raiz do problema. Algumas pessoas podem dizer
que é a droga, o tráfico, mas antes de chegar
até a droga a gente tem a questão da falta
de educação, a falta de oportunidade e isso
acontece também porque a verba não chega onde
tem que chegar. A minha causa é tornar crime hediondo
desvio de verba pública.
Rodrigo
Netto - Mais um jovem vítima da violência
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Por Adriano Dias
O
Detonautas surgiu em 1997 quando Tico Santa Cruz e Tchello
se conheceram num “chat” da internet. Em 1999,
Rodrigo Netto entrou para a banda, no ano seguinte chegou
Fábio Brasil, e em 2001, foi a vez do Cleston.
Em 2002 lançou o primeiro álbum e a música
“Outro Lugar”, deste disco, que rendeu aos Detonautas
o prêmio de banda revelação pela Rádio
Rock, o VMB 2003 e o Prêmio Multishow. Dois anos mais
tarde foi lançado o álbum Roque Marciano e o
DVD com gravação ao vivo. Em 2006, eles lançaram
Psicodeliamorsexo&distorção.
A
história do grupo muda no dia 04 de junho de 2006,
um domingo, quando o guitarrista Rodrigo Netto, de 29 anos
foi assassinado durante uma tentativa de assalto numa das
vias mais movimentadas do Rio, a Avenida Marechal Rondon,
no Rocha - zona norte do Rio.
Segundo investigações Netto dirigia seu carro
acompanhado de seu irmão, Rafael Netto, e de sua avó,
Eliana de Andrade da Silva Netto. Quando um Astra, com quatro
criminosos, tentou interceptar seu carro. O músico
tentou fugir e os assaltantes atiraram. Rodrigo Netto foi
atingido na axila esquerda por uma bala que atravessou seu
peito. Rafael Netto foi ferido no ombro. A avó dos
dois não sofreu ferimentos.
No mesmo episódio Geralda Vieira, de 55 anos, que estava
parada em um ponto de ônibus com a neta de 3 anos foi
ferida no supercílio por uma bala perdida.
Os bandidos fugiram deixando o carro usado no crime na região
da Radial Oeste - principal via de ligação entre
os bairros da zona norte e o centro do Rio - e roubaram outro
veículo, um Audi preto.
Tico
Santa Cruz logo depois do enterro promoveu um protesto contra
o descaso dos governos. Apontou a corrupção
que assola todos os escalões do poder no Brasil como
uma das culpadas pela violência. A partir deste episódio,
passou a alternar sua vida entre os palcos e as manifestações
nas ruas.
Publicado
no jornal
ComCausa 25.
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Fotos:
Acervo ComCausa.
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