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Entrevista:
Vagner
Almeida
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Por Washington
Castilhos
No
início do ano, pichações com ameaças
homofóbicas, atribuídas a um grupo intitulado
“Farmeganistão”, atingiram muros da Rua Farme
de Amoedo, principal trecho de freqüência GLBT da
cidade do Rio de Janeiro.
A
rua é localizada no bairro de Ipanema, na zona sul
da cidade, lugar geralmente freqüentado por pessoas de
alto poder aquisitivo.
Em fevereiro, o Grupo Arco-Íris de Conscientização
Homossexual, temendo ações da gangue durante
o Carnaval, organizou um ato público e o policiamento
no local foi reforçado. No extremo oposto da cidade,
a Baixada Fluminense aglomera vários municípios
da região metropolitana do Rio de Janeiro, sendo também
palco de crimes de violência contra homossexuais, especialmente
contra as travestis que realizam trabalho sexual nas rodovias.
Diferentemente de Ipanema, as agressões na Baixada
Fluminense acontecem quase todos os dias. Acostumado a retratar
em seus documentários o cotidiano de gays, lésbicas
e transgêneros da região, o cineasta Vagner Almeida
não vê diferença entre um crime de ódio
ocorrido em áreas socialmente privilegiadas ou nos
cinturões de pobreza. Para ele, a diferença
está na “impunidade” desses crimes.
“Entre
a Baixada e Ipanema, as diferenças se relacionam
ao modo como as autoridades e pessoas que se interessam
por estes casos resolvem ou lutam para que esses crimes
tenham um encaminhamento correto, e que os assassinos
e agressores sejam devidamente punidos.”, sublinha
Vagner.
Seu último documentário, “Basta um dia”,
conta a história de pessoas que vivenciam ou testemunham
chacinas, assassinatos e brutalidades, retratando a situação
de exclusão e abandono dessas pessoas pelo poder público
e outras instâncias da sociedade. “Além de
denunciar a banalidade e impunidade que caracterizam os crimes
de ódio contra gays e travestis, buscamos também
aumentar o coro de vozes e resistências de todos aqueles
que lutam pela cidadania plena e pela afirmação
da vida como um valor supremo e universal”, afirma Vagner
nesta entrevista.
Como cineasta o sr. volta seu olhar para a Baixada
Fluminense. Por que este cenário?
Como trabalho com diversidades, principalmente sexual, acabei
encontrando um lugar para poder entender sexualidade, gênero
e saúde dentro de um cinturão também
de pobreza, violência e doença. Quando iniciamos
o Projeto Homossexualidade na ABIA, em 1993, fizemos um imenso
apanhado do Grande Rio, analisamos todos os pontos que atuávamos
e acabamos percebendo que a Baixada era potencialmente um
lugar de intensa pesquisa.
“Basta um dia”, seu último filme
produzido na região, trata de crimes de ódio
contra homossexuais. Quem são as maiores vítimas
desses crimes?
Os jovens gays e as travestis são grupos de intensa
vulnerabilidade para esses grupos de extermínio. São
chamadas de presas fáceis. Dezenas de jovens na pesquisa
que antecedeu às filmagens relatam o que acontece com
eles e elas todos os dias e noites quando estão atuando
como “trabalhadores sexuais” na Via Dutra. Relatam
e mostram as marcas da violência, cicatrizes e estilhaços
de balas em seus corpos, e a eterna incerteza do amanhã.
Foi depois desses fatos todos que decidi dar ao filme o título
de “Basta um dia”. É assim que esses atores
sociais da região relatam as suas vidas. Acreditam
que podem sair de suas casas e não retornarem mais.
O que propicia a impunidade deste tipo de ação
na Baixada?
Poderíamos começar a pensar na falta de autoridade,
de policiamento ostensivo, de políticos com interesse
no social, de saúde pública mais presente, de
trabalho e de educação para todos os jovens
gays, de escolas profissionalizantes e de educadores preparados
para conviverem com a diferença.
No começo do ano diversos casos de agressões
a gays têm sido registrados num tradicional ponto de
sociabilidade GLBT, na Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, lugar
geralmente freqüentado por pessoas de classes altas.
Isso revela que a violência homofóbica não
está restrita a áreas urbanas mais “esquecidas”,
como a Baixada Fluminense? Que diferenças o sr. identifica
entre os dois casos?
Crimes são iguais em qualquer lugar. Não há
diferença entre um crime de ódio ocorrido em
áreas socialmente privilegiadas ou nos cinturões
de pobrezas. A diferença está na impunidade,
no modo como as autoridades e pessoas que se interessam por
esses crimes lutam por um encaminhamento correto, no sentido
de que os assassinos e agressores sejam devidamente punidos.
Na zona sul do Rio esses crimes são solucionados rapidamente.
Os homofóbicos de Ipanema conseguem mobilizar o poder
público, grupos GLBT, a sociedade e a mídia.
Na Baixada, esses mesmos crimes ficam sem solução.
Há um descaso das autoridades e até mesmo de
grupos que lutam pelos direitos humanos. Há um descaso,
sim, de toda a sociedade.
“Os
homofóbicos de Ipanema conseguem mobilizar o poder público,
grupos GLBT, a sociedade e a mídia. Na Baixada, esses mesmos
crimes ficam sem solução. Há um descaso das
autoridades e até mesmo de grupos que lutam pelos direitos
humanos.”
Em Ipanema, os agressores são identificados
como pitboys, jovens de famílias de classe média
moradores da região. Quem são os agressores
da Baixada?
De acordo com os relatos dos atores sociais que tenho entrevistado,
os agressores são franco atiradores, clientes homofóbicos
e religiosos que incitam a população contra
a comunidade GLBT. São pessoas que impõem o
toque de recolher, não permitindo que homossexuais
transitem livremente nas áreas dominadas por eles.
Apedrejam ou queimam os corpos das vítimas. Em áreas
elitizadas como Ipanema, resolver o mesmo tipo de violência
dá visibilidade e faz com que se adqüira prestígio
aos olhos públicos. Mas não se resolve o caso
do outro lado da cidade. Na Baixada, não há
a “elite gay cor de rosa”, são raros os
políticos que mostram interesse nos casos, apesar de
terem um eleitorado de milhares de pessoas votando neles.
A própria mídia retrata os fatos que ocorrem
na zona sul, mas raramente vê-se estampada nas capas
dos periódicos mais intelectualizados a violência
que arrasa a Baixada diariamente. A não ser nos jornais
sensacionalistas, que estampam suas manchetes com fragmentos
de frases como “UMA QUASE MULHER MORTA NA DUTRA”.
Tratava-se de uma jovem travesti que foi barbaramente assassinada
na hora de seu trabalho à beira dessa rodovia. Todos
os dias isto ocorre lá e não há nenhuma
mobilização. Temos sim uma faixa separando uma
elite gay dos homossexuais que vivem nos cinturões
de pobreza da Baixada Fluminense. É a nossa realidade,
mesmo que lamentável.
Porém, não existem diferenças entre os
crimes. A mesma bala que fere mortalmente a travesti ou o
gay na Baixada, pode ser a mesma que matou um gay na zona
sul, Nova Iorque, Paris ou Barcelona. Crimes são crimes,
mas a forma de penalização no Brasil é
que nos parece completamente diferente quando se trata de
áreas socialmente privilegiadas ou nos cinturões
de pobreza do Rio de Janeiro.
Vagner
Almeida é coordenador de projetos da Associação
Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e membro do Centro
de Gênero, Sexualidade e Saúde da Universidade
de Columbia, em Nova York – seus filmes fazem parte
do projeto “Homossexualidade” da ABIA.
Publicado
no jornal
ComCausa 24.
Leia outras
entrevistas em www.comcausa.org.br/entrevistas
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Fotos:
Acervo ComCausa.
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