Jornal ComCausa 29

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Fevereiro de 2008  

Capa jornal ComCausa 29

 

Assuntos

> Editorial - Nossa voz
> Grafiteiras pela Lei
> Centro vai educar autores de violência contra mulheres
> Moradores de Santo Expedito sofrem com o abandono
> Tropa: Facismo ou realismo
> Cidadãos ComCausa
 
> Entre Aspas
> Notas SobreTudo
Entrevista
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  > Um marco histórico  
     
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Nossa voz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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> Por Lene de Oliveira

Com o projeto Comunicando ComCausa integramos diversos veículos de comunicação já utilizados por esta organização não-governamental (ONG), como o jornal ComCausa (impresso e eletrônico), boletins digitais, site e portal. O objetivo é atingir um número ainda maior de cidadãos interessados na discussão e consolidação de seus direitos.

Comunicando ComCausa

O projeto “Comunicando ComCausa” funciona como uma rede de informações que projeta a Baixada Fluminense para o resto do Estado do Rio de Janeiro, do Brasil e, a partir de abril de 2008 para alguns países do exterior.
Com o jornal – impresso e eletrônico - conseguimos atingir tanto as comunidades quanto esferas do poder público. Isto nos motivou a criar um espaço permanente para retratar as iniciativas realizadas através do protagonismo local na busca da garantia dos direitos ainda não atendidos plenamente pelos agentes responsáveis, sejam eles públicos ou privados. Ou seja, vamos falar de pessoas comuns que trabalham por uma sociedade melhor, que lutam pela realização de seus direitos, mas que também cumprem seu dever de cidadão. Então, se você conhece alguém assim, entre em contato conosco porque o exemplo é uma boa forma de educar.

Procuramos também ampliar a participação de nossos leitores e colaboradores com a seção “Entre aspas”, que tem por objetivo registrar o olhar do indivíduo inserido na dinâmica da coletividade, através de citações, experiências, reflexões e opiniões destes. Não há certo ou errado! Há um ponto de vista! Há uma opinião que é construída a partir de cada experiência! E tem um número enorme de pessoas que não conhecem suas opiniões.

Nova estética, nova programação visual

Outra mudança pode ser percebida no padrão estético do jornal. Adotamos um visual mais leve e uma estrutura organizacional mais bem definida, proporcionado uma leitura mais dinâmica e agradável.

O destaque desta edição fica para iniciativas do poder público e da sociedade civil de prevenção à violência contra a mulher. Trata-se de duas iniciativas com metodologias autênticas e inovadoras que buscam trabalhar a temática a partir da transformação de hábitos e mentalidades.

No primado pela diversidade, a possibilidade de diálogos que vão da questão ambiental ao questionamento do conceito tradicional de literatura; da entrevista com vocalista de uma banda punk à resistência de jovens que mantêm viva a prática do malabaris; da I Conferência GLBT na Baixada à adversidade de opiniões sobre o filme Tropa de Elite.

Como o trocadilho é inevitável: falamos SobreTudo.

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Grafiteiras pela Lei Maria da Penha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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> Por Giordana Moreira

Projeto Grafiteiras pela Lei Maria da Penha cria uma nova forma de debater a questão da violência contra a mulher através do contato de jovens mulheres das comunidades com a arte pública do "graffiti".

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A atuação da ComCausa em projetos como o “Baixada na Pista”, “O Rio Hip Hop Contemporâneo”, entre outros, sempre incentivou a produção artística e intelectual feminina na cultura Hip Hop.
A história com mulheres que produzem a arte do grafite começou no “I Encontro Nacional de Grafiteiras” em Porto Alegre, no ano de 2005. Na época construímos um artigo que foi divulgado no Bocada Forte - site especializado neste segmento cultural e mais acessado do país. Este encontro gerou a rede nacional “Grafiteiras BR”.
Em 2007, em atendimento a uma vítima de violência de gênero a ComCausa constatou a necessidade de ações para a difusão e exigibilidade da aplicação da Lei 11.340/06 - Lei Maria da Penha - principalmente na região da Baixada Fluminense.

Juventude e Direitos: Grafiteiras pela Lei Maria da Penha
Do acúmulo destas duas experiências surgiu o “Juventude e Direitos: Grafiteiras pela Lei Maria da Penha”. Projeto - patrocinado pela FASE - que vai formar promotoras populares, criando uma nova forma de debater a questão da violência contra a mulher através do contato jovens das comunidades com a arte pública do “graffiti”.
O lançamento do projeto acontecerá em dois dias: 08 de março - Dia Internacional das Mulheres - em São João de Meriti; e dia 09 de março, no centro de Nova Iguaçu.

Exposição e formação das promotoras
O SESC de São João de Meriti vai receber a exposição “Minas do Graffiti”, aonde também haverá a capacitação de cerca de quinze grafiteiras na Lei 11.340/06 - numa parceria da ComCausa com o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher.
No domingo, dia 09, acontecerá o 2° Encontro de Grafiteiras do Rio de Janeiro, com intervenção artística no muro da Praça dos Direitos Humanos, na Via Light (esquina com a rua Dom Walmor), no centro de Nova Iguaçu. Neste evento haverá performances artísticas com a apresentação do “ComCausa Sound System”. DJs, MCs, grafiteiras e produtores que promoverão a arte através do debate, do graffiti e de outras atividades. Também haverá shows com os rappers Dom Negrone e Vinícius Terra e as rappers, JC, Sista Wolff e Ultimato à Salvação e DJ Boneco.

Atuação direta nas comunidades
Após a capacitação das grafiteiras - entre os meses de março a junho - serão realizadas oficinas em quatro comunidades da Baixada Fluminense: Rosa dos Ventos, Carmary e Bairro Grajaú, em Nova Iguaçu e Vila Rosali, em São João de Meriti. A finalidade desta atução direta nos bairros é a divulgação da Lei Maria da Penha através de oficinas de grafite e da pintura de muros aonde deixaremos uma provocação visual para a reflexão da sociedade em geral - homens e mulheres, jovens e adultos - sobre o tema.

Grafitagem na Delegacia
Ao final do projeto - no dia 08 de Junho - numa relação inédita na região da Baixada, a ComCausa em parceria com a Polícia Civil (Coordenadoria das DEAM´s - Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher) irá realizar intervenção artística no muro da Delegacia de Apoio a Mulher (DEAM) de Nova Iguaçu, encerrando, assim, nossas atividades neste projeto com performances artísticas.

As inscrições são limitadas e devem ser feitas previamente pelo telefone 21 3045 6642,
nas próprias comunidades ou pelo e-mail arteepensamento@comcausa.org.br

 

Formação de Promotoras Populares da Lei Maria da Penha para Grafiteiras

08 de março - SESC São João de Meriti
10h às 15h: Debate livre entre as grafiteiras; Palestra e debate com advogada do Cedim especilista no tema.
15h30: Oficina de Graffiti.
17h: Exposição e Coquetel de lançamento.
18h: Encerramento.

09 de março -Praça dos Direitos Humanos - Centro de Nova Iguaçu
10h:Grafitagem de Muro;
14h:Lançamento do projeto com o ComCausa Sound System.

 

Formação de Promotoras Populares da Lei para jovens das comunidades

CIEP de Rosa dos Ventos - na Estrada da Palhada
15 de março - sábado - 09h: Oficina de capacitação da Lei Maria da Penha; Oficina de Desenho.
16 de março - domingo - 09h: Graffiti Arte Pública – Grafitagem na comunidade.

Associação de Moradores do Bairro Grajaú – Cerâmica – Nova Iguaçu.
05 de abril - sábado - 09h: Oficina de capacitação da Lei Maria da Penha; Oficina de Desenho.
06 de abril - domingo - 09h: Graffiti Arte Pública – Grafitagem na comunidade.

São João de Meriti - Quadra do Peti na Vila Rosali.
26 de abril - sábado - 09h: Oficina de capacitação da Lei Maria da Penha; Oficina de Desenho.
27 de abril - domingo - 09h: Pintura
do Muro na Comunidade.

CIEP Chão de Estrelas - Bairro Carmary - Nova Iguaçu.
17 de Maio - sábado - 09h: Oficina de capacitação da Lei Maria da Penha; Oficina de Desenho;
18 de Maio - domingo - 09h: Graffiti Arte Pública – Grafite na comunidade.

 

Encerramento “Graffiti Arte Pública” na Delegacia de Apoio à Mulher de Nova Iguaçu.

08 de Junho - Grafitagem no Muro da DEAM Nova Iguaçu com performances artísticas.

 

Acompanhe em www.comcausa.org.br/grafiteiraspelalei.

Fotos: Acervo ComCausa.

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Centro vai educar autores de violência contra mulheres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

> Por Rosa Lima

Nova Iguaçu vai sediar o primeiro Centro de Educação e Responsabilização para Homens Autores de Violência de Gênero no país.

Um acordo, assinado em novembro do ano passado, pelo Ministério da Justiça e a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) destina a verba de R$ 1 milhão para concretizar o projeto desenvolvido pela Secretaria de Valorização da Vida e Prevenção da Violência de Nova Iguaçu.
O Centro de Educação e Responsabilização para Homens Autores de Violência de Gênero - CERH - de Nova Iguaçu será a matriz para outros centros a serem criados nas demais cidades do Brasil. Ele atende à exigência de reeducação – até hoje não cumprida – feita pela Lei Maria da Penha.
Segundo o psicólogo Fernando Acosta, que coordena o projeto, a violência de gênero, por sua complexidade, exige uma abordagem multidisciplinar que contemple todas as suas dimensões.

“Esta perspectiva abrangente, hoje, já não pode mais ser pensada sem um trabalho que inclua o atendimento e a responsabilização de homens autores de violência contra mulheres”, afirma Fernando Acosta.

Responsabilização e reflexão

Nesse sentido, além de políticas voltadas para a conscientização da população, tratamentos dirigidos à família, serviços de mediação de conflitos e redes de atendimento às mulheres em situação de violência, identificou-se também a necessidade de projetos que possibilitem a responsabilização e a recuperação dos homens autores de violência.
O centro vai promover um trabalho de reflexão visando à revisão de conceitos e à transformação de atitudes dos autores de agressão. Para isso serão formados grupos reflexivos integrados por homens encaminhados pela Justiça, como manda a lei, e também por aqueles que se apresentarem voluntariamente.
O projeto funcionará no Fórum da cidade e assumirá também a responsabilidade de orientador e inspirador os demais municípios. O CERH de Nova Iguaçu vai definir metodologia e procedimentos que serão implantados no resto do país, e formará os quadros que atuarão nos outros locais.
A idéia é iniciar os trabalhos nos primeiros meses do ano, com a formação do primeiro grupo de homens encaminhados pela Justiça.

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Moradores de Santo Expedito sofrem com o abandono

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

> Por Diego Kengen

Motivados pelos telefonemas da Comissão de Meio Ambiente da ALERJ e da produção do Fantástico - que tinha como objetivo colher informações, a fim de produzir uma matéria sobre o depósito de lixo químico localizado nessa região –
a ComCausa visitou Santo Expedito, em Queimados, que fica ao lado do Centro Tecnológico de Resíduos Ltda. – o Centres - instalado ali em 1987.

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O CENTRES era uma área que serviria para estocar temporariamente resíduos químicos, de onde deveriam seguir para uma unidade de destinação final, só que isto nunca aconteceu. No local foram deixados milhares de toneladas de lixo tóxico.
Com a área abandonada, durante anos, as pessoas sem informação entravam na área contaminada, pegavam barris de metal e bombonas, jogavam os resíduos químicos no chão e vendiam os mesmos para a população que, desinformada, armazenava até água nos mesmos. Além disso, sem cercas que impedissem o acesso à área, animais pastavam livremente entre o lixo tóxico e tinham sua carne e leite vendidos para a população.
Há aproximadamente quatro anos os resíduos foram retirados, mas a área não foi descontaminada e não houve nenhuma ação reparadora para os moradores do bairro, que até hoje sofrem com alto índice de casos de câncer - provavelmente provocados pelos resíduos das empresas.
O Sr. Mandico - morador do bairro há mais de 24 anos, foi presidente da associação de bairro, trabalhou no CENTRES e hoje é portador de câncer. Ele deu declarações à equipe do Fantástico a respeito da sua experiência e dos efeitos que a proximidade com lixo químico acarretou em sua vida.

Quem acha que o bairro de Santo Expedito, em Queimados, sofre apenas com os efeitos da contaminação por resíduos tóxicos, está enganado.

Durante nossa visita percebemos que os problemas do bairro vão muito além do CENTRES, tivemos contato com uma triste realidade. Na associação do Bairro conversamos com moradores que falaram do descaso das autoridades com iluminação e saneamento – que inviabiliza o trafego no período de chuvas. Além disso, segundo estes, em razão da falta de estrutura do posto de saúde, alguns doentes já ficaram por mais de seis meses sem atendimento médico.

TTambém informaram que os ônibus passam de uma em uma hora e estão em péssimo estado e que não oferecem conforto e segurança. No período de nossa visita – 14 de fevereiro - os ônibus não estavam percorrendo todo o itinerário devido à obstrução por uma árvore caída na estrada. A associação do bairro afirmou que já tinham solicitado a retirada pela prefeitura há vários dias, mas não tiveram resposta.

Santo Expedito possui apenas uma escola pública com turmas até a 8ª série. Logo, os estudantes que estão cursando o 2° grau tem que saírem do bairro, como não há passe livre para esses alunos, muitos interrompem seus estudos, pois a maioria não tem como pagar diariamente o valor da passagem.

Após ouvirmos os relatos dos moradores e vermos de perto alguns dos problemas citados, a ComCausa decidiu interferir. Enviaremos estas informações para os entes públicos e privados responsáveis que foram citados e estaremos acompanhando o processo na espera que haja respostas e ações positivas da parte destes.

O Provocador

Maicon da Silva Carlos, de 18 anos - estudante e morador de Queimados - viu na edição do Fantástico do dia 10 de fevereiro, o pedido ao público que denunciasse depósitos de lixo tóxico abandonados. E foi isso que fez: enviou e-mail para a produção do programa. O resultado pôde ser visto no dia 17 de fevereiro, quando foi exibida a matéria citando, entre outros locais, o CENTRES.

“Creio que todos devem tomar iniciativas do tipo, não apenas pelo bem ambiental, mas sim por qualquer caso que esteja prejudicando e ferindo, a lei, a população”

Maicon nos informou que espera que sua iniciativa incentive outras do tipo:

“As pessoas devem se conscientizar e tomar atitudes. Assim, estaremos sendo realmente cidadãos”

A atitude deste jovem, morador da Baixada, demonstra como uma simples iniciativa pode contribuir para trazer à público as questões em nossa região.

Fotos: Acervo ComCausa.

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Tropa: facismo ou realismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

> Por Diego Kengen

Após a premiação do filme com o Urso de Ouro no Festival de Berlim toda a polêmica volta à tona. Agora, tem como principal foco a “imagem” que o filme passa do país.

O filme “Tropa de Elite” é uma propaganda fascista que legitima a brutalidade da polícia ou é um retrato corajoso que expôs a questão diante da sociedade?

Estas foram algumas das opiniões de órgãos de imprensa e entidades de direitos humanos que geraram centenas de artigos e debates por época de seu lançamento – oficial ou não.

O Centro de Cultura Proletária divulgou na “Rede contra a Violência” – grupo de entidades na internet - um artigo em inglês do jornal “The Guardian” com a seguinte mensagem:

“Os brasileiros deviam envergonhar-se com o sucesso de Tropa de Elite, um filme que desumaniza as vítimas da tortura policial. Assim começa o artigo do jornal britânico The Guardian. No final, diz: a violência no Brasil é um sintoma de um largo conjunto de problemas sociais, em relação aos quais os brasileiros devem assumir sua responsabilidade. A maioria da classe média brasileira nunca pôs o pé numa favela, e fala sobre elas como se fosse outro país. Filmes como “Tropa de Elite” ajuda a mantê-la nessa alienação”.

Co-autores do livro “Elite da Tropa”, que inspirou o filme, o Major PM André Batista e o antropólogo Luiz Eduardo Soares - que hoje trabalham na Baixada Fluminense - foram consultores do filme e acreditam que o prêmio vai ajudar a colocar o tema da violência policial na agenda pública.

“Assim como em Platoon e Apocalypse Now, o que se vê no Tropa de Elite é o ponto de vista de quem está vivendo a guerra."

André Batista continua - “É duro, mas esse ponto de vista também precisa ser levado em conta no debate sobre segurança pública. Mais informação e reflexão deixam a sociedade mais crítica e obrigam as autoridades a se posicionarem de forma mais responsável”, acredita.

“A vitória demonstra que o cinema brasileiro alcançou um nível superior de qualidade estética, densidade cultural, profundidade política e maturidade reflexiva”

Segundo Luiz Eduardo “nosso cinema já é um dos melhores do mundo e Tropa de Elite é um filme extraordinário, combinando criatividade, competência técnica e aguda crítica política, com poderosa capacidade de provocar debates sobre temas cruciais”. Portanto, em seu entendimento “quem venceu foi o cinema brasileiro, foi a cultura contemporânea brasileira, que está vibrante como nunca, porque está sendo capaz de morder o espírito de nosso tempo e cuspir a casca das ideologias doutrinárias”.
Para Lene de Oliveira o filme expôs cenas que estão no dia-a-dia de milhares de pessoas.

“Em Acari, durante muitos anos, testemunhei cenas que remetem ao que o filme reproduz, e nem de longe é ficção para moradores de comunidades”

A socióloga afirma que “todo debate que possibilita a reflexão crítica é válido”. Em sua opinião as críticas deveriam ter como foco o conceito de política de segurança. “O que exporta uma imagem ruim de nosso país são políticas públicas baseadas num modelo de gestão que não foi pensado para promover a igualdade social ou no mínimo, fazer valer a constituição. Neste sentido, as cenas de guerra nas favelas e as chacinas – como a da Baixada - veiculadas no noticiário CNN, são a parte visível deste estado de coisa. Quanto a arte em si, já faz algum tempo que trilhamos o caminho de um cinema autêntico que provoca a crítica reflexiva - isto deve ser premiado”.

“O que mais me preocupa não é o filme, mas a reação das pessoas e movimentos”

Afirma Adriano Dias - “Nas apresentações “públicas” feitas pelos camelôs vi pessoas – que inclusive são os estereótipos objetos da brutalidade policial - vibrando com as imagens de tortura e execução. Achavam graça na cena em que o comandante da “operação” dá ordem para a execução, dizendo para colocar o torturado, futuro defunto, na conta do Papa. Temos um quadro evidente de violência simbólica que inverte valores e legitima ações das quais são vítimas”. E continua - “Por outro lado, alguns movimentos acabam gastando muito tempo, energia e recursos discutindo a “mensagem” do filme. Acredito que deveriamos centrar esforços em propostas para mudança no que é consenso de quem elogia ou critica o filme: a realidade das violências ali expostas”.

Questão cultural

Giordana Moreira, coordenadora da ComCausa, prefere discutir as causas: “A questão é cultural, os jovens dentro das comunidades têm como padrão de ascensão a cultura do tráfico, e nas policias, a cultura da banda podre. Se estas culturas prevalecem na sociedade, corre-se o risco de não termos mais o estranhamento provocado por filmes com temas similares ao Tropa de Elite ou Cidade de Deus, e sim, sua banalização”. Em sua análise afirma que:

“... é preciso que outras culturas se apresentem como perspectiva real na vida destes jovens, sejam moradores de comunidades ou aqueles que ingressam nas policias”

Paralelo a toda a polêmica, o livro “Elite da Tropa” se mantêm há vários meses entre os mais vendidos e tem previsão de lançamento na Polônia, Espanha, Estados Unidos e Portugal.

 

Foto: Divulgação.

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Encontro cidadãos ComCausa

 

 

 

> Por Lene de Oliveira

No dia 28 de janeiro, em espaço cedido pelo curso de inglês Brasas, a ComCausa promoveu o seu primeiro encontro “Cidadãos ComCausa” – que reuniu membros, colaboradores e simpatizantes da instituição.


O objetivo do encontro era compartilhar motivações - as causas - de todos os participantes, além de expormos aquelas que levaram a ComCausa a trabalhar com o conceito de Direitos Humanos na Baixada Fluminense.

Profissionais do magistério, das ciências sociais, da saúde, da polícia, junto com estudantes, produtores culturais, músicos, parentes de vítimas de violência e ambientalistas...

todos e todas...

“Cidadãos ComCausa”

 

No dia 28 de janeiro, em espaço cedido pelo curso de inglês Brasas, a ComCausa promoveu o seu
primeiro encontro “Cidadãos ComCausa” – que reuniu membros, colaboradores e simpatizantes da instituição.

O objetivo do encontro era compartilhar motivações - as causas - de todos os participantes, além de expormos aquelas que levaram a ComCausa a trabalhar com o conceito de Direitos Humanos na Baixada Fluminense.

Percebeu-se que as motivações de todos estes são geralmente decorrentes de deficiências de políticas públicas estruturais e que as causas são reativas ou propositivas para se alcançar o plano ideal. Então, devemos olhar para o problema e pensar em seu contexto para realizarmos ações que incidam na questão pontual, mas também, contribuam para uma transformação estrutural das práticas sociais.
Assim, quando buscamos uma solução eficaz para uma demanda ou problema específico, percebemos que sempre existem outros condicionantes que contribuem para aquela situação. Da mesma forma, uma ação específica pode desencadear resultados complementares.
No momento de formação discutiu-se o conceito geral de Direitos Humanos e suas características (universal, indivisível, interdependente).

Por fim, com o objetivo de subsidiar o planejamento anual da ComCausa, todos foram provocados a pensar uma campanha que tivesse um eixo unificador das diversas causas e motivações apresentadas neste encontro.

Assim começamos o ano ComCausa, com muitos compromissos, mas ao mesmo tempo, com mais companheiros e companheiras ao nosso lado.

Foto: Acervo ComCausa.

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Entre Aspas

O olhar do indivíduo inserido na dinâmica da coletividade.


 

 

 

 

Esta seção registra citações, experiências, reflexões e opiniões das pessoas.

   

> Por Marizete Siqueira
A toda comunidade que faz parte e os que ainda não fazem, vamos mobilizar junto a ComCausa. Não podemos nem devemos parar, e, não vamos nos intimidar.
É o meio que temos para falarmos das injustiças, discriminações e descasos das autoridades com a violência na Baixada Fluminense.
Não vamos permitir que calem nossa voz. A Baixada precisa de pessoas de coragem, para divulgar as mazelas que aqui acontecem e ficam por isso mesmo, pois o medo da população, permite que ela continue.
Povo da Baixada, povo sofrido, que só é lembrado na hora do voto, nós somos a maioria, e a maioria não pode abaixar a cabeça para impunidade. Vamos mostrar que juntos somos fortes.
Aproveite o espaço e faça sua manifestação. Acorda Baixada!

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> Por Claudina Oliveira
Imagine a situação da classe teatral na Baixada Fluminense: não temos escolas de formação artística e apenas seis teatros numa região com aproximadamente 4 milhões de habitantes... E um de nossos sonhos era o de montar um espetáculo que falasse da nossa cidade, Nova Iguaçu. O historiador e Geógrafo Ney Alberto de Barros nos presenteou com o texto: "De Iguassú Velha à Nova Iguaçu", com 58 maravilhosos versos que narram a formação de Nova Iguaçu, desde a época dos Tupinambás. Convidamos o talentoso Ribamar Ribeiro para nos dirigir e vamos, eu, Tiago Costa e Márcio Guedes, nos dividindo na produção do espetáculo, que estreou em 12 de janeiro último. Na estréia, não cobramos ingresso, e superlotou.
A divulgação foi boa, mas a maior dificuldade é conscientizar as pessoas de comprarem ingressos. Faço um trabalho - já a algum tempo - de formação de platéia aqui na Baixada Fluminense e comprovamos que a população gosta de teatro, mas está acostumada apenas à entrada franca... Até mesmo os nossos amigos, mesmo sabendo que não temos patrocínio, que bancamos o espetáculo do nosso próprio bolso, pedem insistentemente cortesias...
Gostaria de sugerir uma campanha de valorização aos artistas da nossa região através do reconhecimento dos valores das bilheterias. As pessoas precisam saber que vivemos num mundo capitalista e que não há chance de sobrevivência sem dinheiro. Porque nossos amigos preferem gastar com chops e drinks a colaborar com a bilheteria de um show musical ou teatral?
Há de se fazer algo para mudar esse quadro, já que ainda não existem políticas públicas nesse sentido.

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> Vagner de Almeida
Crimes são iguais em qualquer lugar. Não há diferença entre um crime de ódio ocorrido em áreas socialmente privilegiadas ou nos cinturões de pobrezas. A diferença está na impunidade...
(...) Na zona sul do Rio esses crimes são solucionados rapidamente. Os homofóbicos de Ipanema conseguem mobilizar o poder público, grupos GLBT, a sociedade e a mídia. Na Baixada, esses mesmos crimes ficam sem solução. Há um descaso das autoridades e até mesmo de grupos que lutam pelos direitos humanos.

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> Por Luciene Silva
Nossa luta é pela valorização da vida para todos e todas, para que tragédias como as nossas não se repitam e que nossa perda não seja em vão. Estamos unidos na afirmação dos diretos humanos não só para aqueles que partiram, mas, para a construção de uma sociedade com mais cultura, educação, saúde, emprego, segurança. Precisamos de políticas públicas de qualidade, que valorizem o ser humano, pois esta é a forma mais eficaz de combate à violência.

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> Por Claudia Maria
Fui assistir a um espetáculo no Sylvio Monteiro que conta a história de Nova Iguaçu. Um texto impecável do professor e meu ídolo Ney Alberto e a interpretação também impecável do grupo Fios da Roca. A gente sai do teatro com um orgulho danado de ser iguaçuano. Mas, a nota triste a respeito disso fica por conta de um dado que não está no texto primoroso do professor Ney. O grupo não conseguiu patrocínio para colocar a peça em cartaz no ano em que Nova Iguaçu comemora 175 anos de vida. Pelo jeito, só teve do governo o espaço para apresentar a peça, que cobra R$ 10 e R$ 5 de ingresso. Ao mesmo tempo, recebo um convite de alguém do governo para assistir ao show de Zezé di Camargo e Luciano em homenagem ao aniversário de Nova Iguaçu, tudo de graça, bancado pelos cofres públicos. Nada contra a dupla de irmãos, mas um show como esse deve estar custando em torno de R$ 100 mil. Tenho certeza de que se o governo de Nova Iguaçu tivesse liberado pelo menos R$ 10 mil para a peça no Sylvio Monteiro, a montagem teria sido muito mais fácil e menos penosa para esses heróis da cultura iguaçuana e a população de Nova Iguaçu e da Baixada teria acesso gratuito. Que pena!

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> Por Paulo Christiano Mainhard
A violência presente na Baixada Fluminense é a violência perpetrada pelo Poder Público que sistematicamente nega à população da região os mais básicos e elementares direitos.

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