10 anos de jornal Alternativo

 

Abril de 2007

“Odeia a mídia ... Torne-se a mídia!” - Jello Biafra, Dead Kenned´s

> Por Adriano Dias

A ditadura militar dava seus últimos passos tortos. Em São Paulo “estouravam” greves. No Rio eu vi no jornal que botaram uma bomba dentro de um Puma que explodiu em uma festa. Na televisão, Ney Matogrosso falou “merda”, não no sentido de besteira, falou a palavra, ou melhor o palavrão. Na sala, em frente à TV, meus pais se indignaram - apesar de eles falarem quase todos os dias a tal palavra. Eu tinha então 12 anos, e ainda não entendia bem o que acontecia em minha volta.

Por essa época, um amigo de longa data, o professor Wagner Moura, vizinho de parentes que morava em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, me apresentou uns discos esquisitos, de rock “pesado”, com uns monstrinhos na capa e letras complexas que ele fez questão de traduzir e explicar. A partir daí, naqueles tempos em que a Blitz estava martelando nas rádios e o rock no Brasil dava os primeiros passos, comecei a me interessar cada vez mais por aquele tipo de música que não era vendida nas lojas de discos – somente a partir de 1987 os discos de “rock alternativo” foram “prensados” no Brasil. No decorrer do tempo vim a descobrir outras vertentes musicais alternativas que aglutinavam jovens em torno de diversos movimentos. Mas, em especial, uma destas mais me chamou a atenção: fora do país ela tinha sido criada em idos de 1976/77, mas já em 1982 há muito tinha seu tom contestador sido assimilada pelo “sistema”. Praticamente tinha desaparecido - salvo os movimentos que radicalizaram, por um lado o hardcore, pelo o outro os skinheads. Mas no Brasil o chamado movimento Punk mal tinha iniciado.

Em São Paulo, bastante ligado aos movimentos pós anistia, os jovens operários, office-boys, desempregados, começavam a se organizar em torno daquela música de três acordes e letras subversivas. Assim, entre o trem, a fábrica e o desemprego várias bandas pipocaram nos subúrbios paulistas, assim como as passeatas e greves.
No Subúrbio do Rio, em 1984, passei a ficar sabendo o significado de palavras como DOI-COD, AI-5, golpe militar, repressão, censura, tortura... que pouco apareciam na imprensa ou eram faladas nos colégios daquele tempo. Mas eram temas de músicas e capas de fanzines rodados em mimeógrafos desde 1980 por este movimento.
A gente se comunicava bastante, eu um adolescente do subúrbio do Rio - muito longe dos tempos de internet e tradutores automáticos – conseguia me comunicar com outros jovens na Alemanha, Finlândia e Japão. Como desconhecia os idiomas de meus companheiros, o ritual de comunicação era sempre o mesmo: escrevia uma carta em português, pegava um dicionário de inglês e passava literalmente para a outra língua. O pessoal da Finlândia parecia ter o mesmo conhecimento de inglês que eu. E parecia usar o mesmo método. Mas a gente ia se falando. Ah! Não tinha dinheiro para os selos, assim esfregava-os com sabonete para tirar o carimbo e os reutilizava várias vezes...

Nem tudo eram flores, ou arrebites, em 1985 em São Paulo os movimentos alternativos quase acabam a machadada, facada e correntada entre Punks, Carecas e “Metaleiros”. No final a polícia vinha atirando em todo mundo.

No Rio em parte era diferente, todo mundo se dava, éramos um pouco mais politizados: entre estes jovens havia anarquistas, comunistas e até budistas. Salvo alguns incidentes, todos se relacionavam tranquilamente, ao contrário de São Paulo onde viviam se matando - e agitávamos junto ao som das bandas que gritavam hinos de protesto. A única similaridade com os companheiros paulistas é que boa parte dos shows também terminavam com a polícia espancando um monte de gente no final.

Bom! Era para contar a história do jornal Alternativo, do conceito, ou melhor, do fanzine que deu origem a este jornal. Mas eu tinha que pegar um fio de meada.

Era 1985, Tancredo eleito durante o Rock in Rio. Eu, com 15 anos, cada vez mais me interessava por todo aquele universo que não era falado na escola, muito menos nas ruas sem asfalto da Baixada, onde fui morar na época.
Em 1986 passei a participar de uma “união de juventude” de um tal partido comunista. Na verdade éramos massa de manobra, ou melhor, “bucha” dos líderes destes grupos jovens. Nas passeatas nós é que íamos para cima das tropas de choque para que os outros pudessem recuar. Principalmente os “líderes do movimento”, filhos da classe média bons de discurso, mas ruins de porrada. Por sorte - nossa - estes conflitos já eram raros por esta época.

Em 1987 veio a idéia de fazer um fanzine que não falasse só de música. O discurso era:

“Precisamos conscientizar a nossa geração e mudar o sistema!”.

Então, conforme o lema Punk - “Faça você mesmo” - juntamos papel, cola, tesoura, máquina de escrever Remington 25 e tempo para ir aos arquivos e bibliotecas para fazer pesquisas. Em abril de 1997 é rodada, ou melhor, xerocada a primeira edição do “Consciência Nacional”.

Zine CN – 20 anos
O “zine CN” se diferenciava dos outros por ter 20 páginas, tamanho A4 – a maioria dos fanzines eram duas folhas dobradas no meio - e por ter matérias com bandas alternativas, mas discutir questões como os planos econômicos (muito em “moda” naquela época), os casuísmos políticos da “Nova República” e até - por pouco não publicamos primeiro - episódios históricos como “O Caso Para-Sar” (plano dos militares de explodir o gasômetro do Rio e colocar a culpa nos comunistas). Tudo isso feito por uma turma de em média 17 anos.
Foram três edições – uma nunca terminada – em três anos, mas renderam participação em um monte de outros informativos.
Foi assim até 1989. Veio então a participação na campanha do Lula, a vitória do Collor. E ai virei “traidor do movimento”, abri uma micro-empresa e fui cuidar da vida...

O Alternativo Informativo
Em 1996 voltou a idéia de resgatar o antigo conceito do “CN” e começamos a idealizar um jornal. A tecnologia ajudava, agora era fácil em casa se montar um jornal assim, misturando bandas, teatro, poesia, ecologia, cidadania. Novamente, como o ano começa em março, o Alternativo
Informativo foi rodado em abril de 1997.
Ainda com a “forma” do antigo fanzine, sem maiores estudos metodológicos, foi muito bom ver uma garotada pegar o jornal por causa da Cássia Eller, Dorsal Atlântica, Amina, Plebe Rude, Celso Blues Boy, entre outros. E se interessar sobre poesia, teatro e cidadania que se misturava em nossas páginas. Assim, meio sem querer, criamos vários “monstrinhos”...

 

Café Filosofico "Mídia Independente" em Mesquita:

Andreas Bern (Agencia Pulsar), Cacau Amaral (Cineclube Mate com Angú) e Adriano Dias (ComCausa).

 

 

Foto: SobreTudo

 

 

Jornal Alternativo - 10 Anos

> por Giordana Moreira

O mundo dos fanzines, das bandas de garagem, dos skatistas e qualquer outra forma de subversão de padrões comportamentais era para mim, em 1997, uma forma de expressar um descontentamento com uma realidade típica de Rosa dos Ventos, Nova Iguaçu. Todas as minhas amigas estavam se casando, tendo filhos e ninguém mencionava a palavra vestibular no último ano do ensino médio, onde minha classe tiraria um diploma para ocupar algum posto no mercado de trabalho. Então eu, que passava os dias entre a pista de skate e os encontros de rock, não sabia até onde poderia ir ouvindo Kurt Cobain e Rage Against The Machine.

Gostava de escrever sobre meu descontentamento e na intenção de ter uma avaliação literária entreguei ao Adriano Dias um texto escrito a mão - sobre o novo feminismo – o qual, quando vi, estava publicado.
O Jornal Alternativo me mostrou que ali mesmo havia algo deste universo que antes parecia estar em Seatlle. Nada mais existia que pudesse considerar minhas aspirações no limite da região em que vivia. Naquelas edições podiam-se reunir todas as manifestações de cultura contestadora que aconteciam e estavam tão perto. Na época, como adolescente, eu podia “desperdiçar” meu tempo em fazer festas e escrever sobre o que penso - afinal todos diziam que isso não dava futuro ou emprego – e hoje quando se completa 10 anos de Alternativo eu já não tenho tempo para mais nada, além disso, enquanto integro institucionalmente a sociedade civil organizada.
O Alternativo reunia naquela época o monte de jovens que se movimentavam com a música, o RPG, a poesia ou o teatro, onde muitos passaram a se comunicar e a produzir. No decorrer dos anos seguintes continuei minha busca por este universo independente, questionador e original, tive que sair e voltar várias vezes da minha cidade para prosseguir o que há dez anos afirmamos: uma juventude que se esforça para construir suas alternativas, mas que hoje não se encontra mais na pista de skate, que está perigosa e abandonada; que ainda ouve as músicas de Seatlle na Passarela do Rock, tirada da Praça de Mesquita e remanejada para um local fechado; e que continua contando com o Alternativo, agora também na versão eletrônica, e ainda propondo o fomento daquilo que é, há tempos, a produção cultural independente e a versão positiva da Baixada Fluminense e, ainda, uma das raras “alternativas” para muitos além de mim mesma.

Alternativo ComCausa
Em janeiro de 2007 a ComCausa resgatou o conceito do “Jornal Alternativo”. Agora, como veículo institucional desta entidade, o informativo tem como principal foco a discussão dos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. No entanto, preserva sua identificação com o público juvenil e com a diversidade de manifestações culturais da Baixada Fluminense.
Neste processo de assimilação do “Alternativo” como informativo da ComCausa, foi considerado que em geral os jornais institucionais das ONG´s, mesmo que tenham a função de formação, na maioria dos casos acabam não atingindo diretamente a sociedade, ficando muitas vezes somente dentro dos círculos dos movimentos sociais e instituições públicas.
Por outro lado, os informativos e jornais locais dão entendimento de uma profunda ligação com o meio político partidário em exercício do poder. Somada a visão unilateral da grande maioria dos meios de comunicação que desconsidera e não divulga as ações positivas que ocorrem na Baixada, principalmente as resistências culturais e sociais promovidas pelos movimentos populares, levam ao entendimento da população que não há mudança - “que nada de bom acontece aqui”. Assim, perdem a credibilidade diante da população.
Além disso, no decorrer dos anos, o “Jornal Alternativo” se tornou veículo de informação direta com a juventude pela linguagem, conteúdo, distribuição direcionada e gratuita. E, participou da divulgação de várias questões relevantes da região, tendo credibilidade e aceitação pelos mais jovens.

Assim, mesmo sem muita festa, mesmo com muitas dificuldades, lá se vão dez anos - vinte anos - entre erros e acertos. Mas continuamos, pois “Precisamos conscientizar a nossa geração e mudar o sistema!”.

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Página desenvolvida pela ComCausa.

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