Tropa: facismo ou realismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fevereiro de 2008

> Por Diego Kengen

Após a premiação do filme com o Urso de Ouro no Festival de Berlim toda a polêmica volta à tona. Agora, tem como principal foco a “imagem” que o filme passa do país.

O filme “Tropa de Elite” é uma propaganda fascista que legitima a brutalidade da polícia ou é um retrato corajoso que expôs a questão diante da sociedade?

Estas foram algumas das opiniões de órgãos de imprensa e entidades de direitos humanos que geraram centenas de artigos e debates por época de seu lançamento – oficial ou não.

O Centro de Cultura Proletária divulgou na “Rede contra a Violência” – grupo de entidades na internet - um artigo em inglês do jornal “The Guardian” com a seguinte mensagem:

“Os brasileiros deviam envergonhar-se com o sucesso de Tropa de Elite, um filme que desumaniza as vítimas da tortura policial. Assim começa o artigo do jornal britânico The Guardian. No final, diz: a violência no Brasil é um sintoma de um largo conjunto de problemas sociais, em relação aos quais os brasileiros devem assumir sua responsabilidade. A maioria da classe média brasileira nunca pôs o pé numa favela, e fala sobre elas como se fosse outro país. Filmes como “Tropa de Elite” ajuda a mantê-la nessa alienação”.

Co-autores do livro “Elite da Tropa”, que inspirou o filme, o Major PM André Batista e o antropólogo Luiz Eduardo Soares - que hoje trabalham na Baixada Fluminense - foram consultores do filme e acreditam que o prêmio vai ajudar a colocar o tema da violência policial na agenda pública.

“Assim como em Platoon e Apocalypse Now, o que se vê no Tropa de Elite é o ponto de vista de quem está vivendo a guerra."

André Batista continua - “É duro, mas esse ponto de vista também precisa ser levado em conta no debate sobre segurança pública. Mais informação e reflexão deixam a sociedade mais crítica e obrigam as autoridades a se posicionarem de forma mais responsável”, acredita.

“A vitória demonstra que o cinema brasileiro alcançou um nível superior de qualidade estética, densidade cultural, profundidade política e maturidade reflexiva”

Segundo Luiz Eduardo “nosso cinema já é um dos melhores do mundo e Tropa de Elite é um filme extraordinário, combinando criatividade, competência técnica e aguda crítica política, com poderosa capacidade de provocar debates sobre temas cruciais”. Portanto, em seu entendimento “quem venceu foi o cinema brasileiro, foi a cultura contemporânea brasileira, que está vibrante como nunca, porque está sendo capaz de morder o espírito de nosso tempo e cuspir a casca das ideologias doutrinárias”.
Para Lene de Oliveira o filme expôs cenas que estão no dia-a-dia de milhares de pessoas.

“Em Acari, durante muitos anos, testemunhei cenas que remetem ao que o filme reproduz, e nem de longe é ficção para moradores de comunidades”

A socióloga afirma que “todo debate que possibilita a reflexão crítica é válido”. Em sua opinião as críticas deveriam ter como foco o conceito de política de segurança. “O que exporta uma imagem ruim de nosso país são políticas públicas baseadas num modelo de gestão que não foi pensado para promover a igualdade social ou no mínimo, fazer valer a constituição. Neste sentido, as cenas de guerra nas favelas e as chacinas – como a da Baixada - veiculadas no noticiário CNN, são a parte visível deste estado de coisa. Quanto a arte em si, já faz algum tempo que trilhamos o caminho de um cinema autêntico que provoca a crítica reflexiva - isto deve ser premiado”.

“O que mais me preocupa não é o filme, mas a reação das pessoas e movimentos”

Afirma Adriano Dias - “Nas apresentações “públicas” feitas pelos camelôs vi pessoas – que inclusive são os estereótipos objetos da brutalidade policial - vibrando com as imagens de tortura e execução. Achavam graça na cena em que o comandante da “operação” dá ordem para a execução, dizendo para colocar o torturado, futuro defunto, na conta do Papa. Temos um quadro evidente de violência simbólica que inverte valores e legitima ações das quais são vítimas”. E continua - “Por outro lado, alguns movimentos acabam gastando muito tempo, energia e recursos discutindo a “mensagem” do filme. Acredito que deveriamos centrar esforços em propostas para mudança no que é consenso de quem elogia ou critica o filme: a realidade das violências ali expostas”.

Questão cultural

Giordana Moreira, coordenadora da ComCausa, prefere discutir as causas: “A questão é cultural, os jovens dentro das comunidades têm como padrão de ascensão a cultura do tráfico, e nas policias, a cultura da banda podre. Se estas culturas prevalecem na sociedade, corre-se o risco de não termos mais o estranhamento provocado por filmes com temas similares ao Tropa de Elite ou Cidade de Deus, e sim, sua banalização”. Em sua análise afirma que:

“... é preciso que outras culturas se apresentem como perspectiva real na vida destes jovens, sejam moradores de comunidades ou aqueles que ingressam nas policias”

Paralelo a toda a polêmica, o livro “Elite da Tropa” se mantêm há vários meses entre os mais vendidos e tem previsão de lançamento na Polônia, Espanha, Estados Unidos e Portugal.

Veja Também entrevista com Luiz Eduardo Soares e André Batista .

Veja mais em notícias - Publicado no jornal ComCausa 29.

Foto: Divulgação.

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